segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Escola com Poesia e Vida!

Para que possamos ter poesia e liberdade na escola e na vida!! Que a poesia livre prevaleça!!
Imagem retirada do google imagens

Escola sem partido (?)

A Educação Brasileira caminha, a ligeiros passos, para a guilhotina, como se praticava, no início da colonização exploratória e opressora do nosso país, contra todos aqueles que contrariassem os interesses da Corte e de seus defensores. O Projeto de Lei 193 de 2016, de autoria do Senador Magno Malta, cuja biografia não se relaciona, nem de modo indireto, à Educação, visa incluir na LDB a ideologia (sim é ideologia) do movimento “Escola sem Partido”, cujo objetivo principal e mais evidente é proibir qualquer manifestação em prol da diversidade e da liberdade de ser, muito embora usem de justificativas, fingidamente, em favor da liberdade de aprender.
Acometidas pela síncope da intolerância e da ignorância crônica, muitas pessoas passaram a propagar essa ideia, como se professoras e professores fossem carrascos obsessores que incutissem ideias absurdas na mente de seus alunos, que pregassem a barbárie, a desobediência, a politicagem, a promiscuidade ou a intolerância religiosa. Paradoxalmente, ao intentarem limitar a prática docente, essa tal ideologia posiciona-se pela intolerância, pela opressão e repressão, sendo de fato um “partido”, posto que, coletivamente defendem uma ideia. Outrossim, as leis (municipais, estaduais e federais) que regem o serviço público e, por conseguinte, a docência, já preveem as punições adequadas para os possíveis casos de desvio, abusos ou infrações cometidas pelo professor, sendo desnecessária e abusiva qualquer outra.
A própria denominação “Escola sem Partido” já é, por si só, o maior dos engodos e uma tentativa, deslavada, de enganar e manipular. Quando dizem “sem partido” tentam aludir à isenção, o que não ocorre. Quando estipulam vedações, quando determinam o modus operandi do professor e da escola, quando limitam a liberdade de expressão do professor, quando elegem o que os alunos devem ou não aprender, sem serem profissionais da educação, eles têm sim um partido! O partido desses indivíduos é o conservadorismo aniquilante, é a opressão, o atraso, o silêncio, a falta da participação popular nas decisões.
O que a Escola atual tem feito, de tão perigoso, que esses paladinos da moral estão assim, tão preocupados? Ela tem sido espaço de resistência contra o descaso dos governantes, tem funcionado mesmo com a merenda desviada ou superfaturada, com cadeiras e mesas sucateadas, com professoras e professores mal remunerados e desvalorizados, com a ausência de segurança, de oportunidade de pesquisa, com o corte de verbas, a negligência familiar, etc. A Escola resiste e os alunos, aprendem nela, com ela - e com a realidade que os cerca- a serem também resistentes. Isso incomoda e muito. Não é a preferência política, sexual, religiosa, esportiva do professor que vai transmutar o pensamento do jovem estudante, mas sim o descaso, a roubalheira, a corrupção, o abandono do seu ambiente de estudo, do seu bairro, é o aniquilamento da sua voz.
Em participação na audiência pública[1] sobre assédio ideológico, na Comissão de Educação da Câmara dos Deputados, Miguel Nagib, líder do movimento Escola Sem Partido afirmou que “Nenhum professor possui liberdade de expressão no exercício da atividade docente, se assim fosse o professor ensinaria o assunto que quisesse, falaria de novela.” Vê-se, claramente, que o intuito desse movimento não é cuidar da formação educacional dos jovens, mas sim cercear a liberdade docente, reprimir as práticas dialógicas que primem pelo respeito às diferenças, que valorizem o pluralismo, usando para isso do poder que detêm, atualmente, na política nacional e de falsas afirmações sobre o exercício da docência e desconhecimento total da BNCC, PCNS e da LDB, que eles visam alterar.
Se houvesse, de fato, uma preocupação com a educação dos jovens brasileiros, com sua formação moral e acadêmica, esses probos senhores, defensores dos “valores”, estariam fazendo cumprir, em sua totalidade, o Artigo 205 e seguintes da Constituição Federal, entendendo a Educação como “...direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho.” (grifo meu). Se, porventura, lhes interessasse dar maior eficácia à LDB, ao invés de propor essa alteração aviltante, estariam lutando pelo cumprimento do Art.  3º e respectivos incisos da referida lei:
Art. 3º O ensino será ministrado com base nos seguintes princípios:
I - igualdade de condições para o acesso e permanência na escola;
II - liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar a cultura, o pensamento, a arte e o saber;
III - pluralismo de ideias e de concepções pedagógicas;
IV - respeito à liberdade e apreço à tolerância;
V - coexistência de instituições públicas e privadas de ensino;
VI - gratuidade do ensino público em estabelecimentos oficiais;
VII - valorização do profissional da educação escolar;
VIII - gestão democrática do ensino público, na forma desta Lei e da legislação dos sistemas de ensino;
IX - garantia de padrão de qualidade;
X - valorização da experiência extraescolar;
XI - vinculação entre a educação escolar, o trabalho e as
práticas sociais.
XII - consideração com a diversidade étnico-racial. (Incluído pela Lei nº 12.796, de 2013)

A Educação, por si só, em qualquer sentido, é um ato político, pois oferece ao educando novas possibilidades de ser e agir, a partir do conhecimento que ele constrói. Sim, constrói, porque conhecimento não é uma transmissão virulenta ou por osmose, o professor não empurra o conhecimento na mente do aluno, ele é construído pelas descobertas e percepções feitas por este, a partir de sua realidade e dos conteúdos apresentados. Jean Piaget (1896-1980), em sua Teoria Construtivista já dizia que o conhecimento é construção, descoberta, experimentação e não imposição e repetição de regras e conceitos. Posteriormente, Emilia Ferreiro ratificou essa ideia, especialmente no campo da leitura e escrita, revolucionando a alfabetização ( e eles não eram petistas, meus nobres). No Brasil, Paulo Freire, xingado por pessoas que nunca leram uma linha de suas obras, nem conhecem um traço de sua atuação, defendia a chamada Pedagogia da Libertação, que, resumidamente, clamava por uma educação emancipatória, inclusiva, que desse vez e voz aos historicamente excluídos. Em sua obra Pedagogia da Indignação, Freire deixa claro que a escola pode ser lugar transformador, como desejamos ou anulatório, como assim pretendem os defensores da Escola sem Partido.

 (...) jamais [pode] ser neutra, tanto pode estar a serviço da decisão, da transformação do mundo, da inserção crítica nele, quanto a serviço da imobilização, da permanência possível das estruturas injustas, da acomodação dos seres humanos à realidade tida como intocável.(FREIRE, 2000)
O que tem incomodado aos partidários desse movimento, não é a pseudo doutrinação de que tanto falam, mas a certeza de que a Educação liberta, faz falar, permite pensar, agir livremente, impede os votos de cabresto, combate a alienação, impede a dominação e isso, consequentemente, atrapalha a manutenção perpétua de crápulas no poder. A Escola sem partido pretende formar mão de obra barata, massa de manobra que não contesta, não reivindica, não sai às ruas lutando por seus direitos. O que eles querem é que você pense o que e como eles desejam e não que você seja livre para pensar, ser e construir.
Libertemo-nos, se assim desejarmos!

Erika Ribeiro
Professora, Poeta, Aprendiz de Fotógrafa, Gente que sente ( e muito)!






[1] https://www.youtube.com/watch?v=7t8ucShY8bw

domingo, 10 de julho de 2016

De teimosa que sou, resolvi viver!!



Ensaio Frida Khalo - Heitor Rodrigues Fotografia- https://www.facebook.com/heitorrodriguesfotografias/?fref=ts

De repente, no girar das engrenagens que arrastam a vida, se percebe que os acontecimentos, quase sempre, independem dos nossos desejos. A vida tem seu caminho e calendário próprio, que não se encaixa nos fluxogramas que traçamos como metas incontestáveis. A vida segue, quer você queira parar para descansar ou correr para chegar mais cedo; a vida vai adiante,  no tempo dela.


Feita a constatação - a tempo - há sempre escolhas: seguir, tão leve e livre como a vida é, sendo como quer e pode ser, ou amuar-se num ponto, insistindo em ser burocrático, lamentando os machucados e os voos não alçados.


Por vezes, a vida, imperiosa que é, te sacode do voo que você já rumou; mutila alguma asa, emudece um verso e finca a afiada dor. Não que ela queira te tirar o sonho, a liberdade ou o ar. O que a vida quer é que você seja capaz de reinventar-se, de criar novas alternativas  e rotas de voo. A vida nos coloca à prova, para que possamos plantar novas mudas, regar as flores do olhar e, assim, fortalecermos a alma, mas sem perdermos a poesia de cada dia. A vida quer que a gente viva, de fato.

Senti - e ainda sinto - o corte afiado de sua lâmina rasgando-me o riso, fazendo tempestade no olhar, amordaçando o verso leve que morava aqui. Senti - e muito. Senti o escorrer dela pelas pernas, o fugir da alma, a rebeldia e amargor do verso, o ocultar sombrio do riso. Senti muito. Senti tanto até perceber o que a vida queria de mim.

A vida quer que eu ensaie novos voos, mesmo com a asa quebrada; que plante outros versos, noutros ninhos; que eu desenhe o sorriso noutros rostos, mesmo que ele não esteja em mim. A vida quer que eu teime. De teimosa que sou, resolvi viver, sendo como quero e posso ser.


Erika Pók Ribeiro
Poeta, Vagalume, Professora, Aprendiz de fotógrafa, Ensaista de pássaro, Gente que sente (e muito).

Tempestade


Ouço o sorrateiro caminhar do tempo
Que passa leve, alisando as janelas 
de minha alma.
Arrodeia,
Num ritual perpétuo,
e vai deixando, sobre minha pele,
Recados escritos à mãos e lábios
que me fizeram.

É o tempo que chega, assoviando
as cantigas que ninaram quem sou.
Recontando os dias, de riso ou dor,
que na lida constante,
no verso que nasce
ou no poema que encerra,
Reconstroem o que sou.

É esse tempo que vai, nesse tempo que
é dele,
Arreliento menino
que chega e se esconde,
faz festa ou emburra-se,
Sempre abrindo as veredas
pro voo que é meu!

É o tempo que passa
e vai,
pendurado nas datas
que passeiam sem fim.


Pók Ribeiro
Uauá-Bahia

domingo, 12 de junho de 2016

Divagações de um cigarro anti-fumo

Foto: Heitor Rodrigues Fotografia
Enquanto escrevo mais um cigarro
e assopro suas fumaças alérgicas
pra bem longe,
o verso se apaga!

Ao lado, um analgésico repousa, já morno,
no copo marcado em carmim,
como se tuberculoso fosse.
  - Não beba aqui!
         JAZ!



Nesse ínterim, tanto eterno,
aquela nuvem já não sombreia
e
nem sei quando se foi.
É que, enquanto penso,
a vida desmancha mais
e última cinza cai no caco
que sobrou.



                                                         Pók Ribeiro

sexta-feira, 27 de maio de 2016

Não me calo!

http://www.bloginforma.com.br/criadora-eu-nao-mereco-ser-estuprada-recebe-ameacas-estupro/


Súbito o silêncio!!
Aquele que, lentamente, dilacera a alma e vai envenenando cada artéria, destroçando as vísceras. Depois, um turbilhão em ascendência: o grito engasgado, a pele em repulsa, o nojo, a ânsia... A infeliz e eviterna certeza de que ser mulher dói, nessa nossa sociedade tão obtusamente patriarcal.

33 homens e seu poder fálico. 33 homens e sua dominação sobre o corpo e a vida da mulher/menina. 33 homens e a reprodução do que pensam sobre nós. 33 homens e o escancaramento da perversidade machista, opressora e mortal.  Porém, não foram apenas os 33, a eles se somaram, ferozmente, outros tantos de igual pensamento, cuspindo ódio, crueldade e falta de conhecimento pelas redes sociais. 

E os destroços de minha alma, o que ainda restava de estômago e ar nas veias se esvai, vou morrendo presa à angustia e a revolta. Eu não sinto a dor, o medo, o nojo da menina estuprada - apenas imagino - mas sinto um desespero que me toma por completa. Tenho raiva e convalesço.

E vejo, descrente, comentários que atacam as feministas, que zombam de sua luta e manifesto, que questionam equivocadamente porque elas não “protegeram” essa menina, porque “não estavam lá”. Sequer sabem o que é o feminismo; criam uma visão estereotipada e não se permitem aprender, pesquisar. Eles se tornam autossuficientes por terem um falo. Fico zonza... Noutro canto alguém culpabiliza a vítima, suas roupas, seu modo de viver, sua “prematura” vida sexual e outros disparates. Há ainda quem defenda a castração química para o estuprador, como acudiu um dia um abjeto Senhor que, outrora, também disse que não estupraria a colega parlamentar, porque ela não merecia e que, recentemente, homenageou um torturador e estuprador. Outros tantos absurdos se insurgem... Desisto de pensar. Está extremamente difícil viver por aqui. Parem! Não importa o ponto, eu descerei!

Por favor, acordem!!! Não basta punir os estupradores, no caso destes serem presos. Não! Não adiantará castrá-los. Exterminá-los. Eles já terão estuprado, assediado, torturado, ameaçado, antes disso. O mal às mulheres já estará feito. É necessário sim, falar sobre machismo, mostrar que ele mata!! É fundamental fortalecer o feminismo, ser “Maria Passeata” sim, porque o debate, a conscientização, o grito, a denúncia podem evitar que outros tantos deuses fálicos destruam vidas. Se o feminismo te incomoda, se as imagens e textões, sobre o assunto, também lhe incomodam, você precisa reavaliar-se urgentemente e, principalmente, ler sobre o tema; não as leituras de posts do facebook, ou as rasas descrições do Wikipédia, digo a leitura que engrandece, acrescenta, questiona, provoca.

O que dizer às meninas com as quais convivo todos os dias, que são assediadas no ônibus, na fila do lanche, nos corredores/salas da escola, na rua, que já podem ter sido vítimas de assédio/violência sexual em casa? Fico engasgada mais uma vez... Meninas, lutemos!! Denunciem! Gritem! A culpa não é de vocês, nunca! O corpo é seu!

E aos meninos? Meus queridos, se reavaliem, respeitem, evitem reproduzir as práticas ancestrais que tratam a mulher como objeto, não exponham suas intimidades, não compartilhem imagens/vídeos/boatos, não avaliem a mulher pelo corpo, roupa, batom, jeito solto ou quieto de ser. Sejam parceiros na luta pela liberdade e vida da mulher.

Por fim, cá da minha ânsia e tristeza, percebo que além de respeito ao corpo, ao modo de vida, à liberdade da mulher, necessitamos de leitura e interpretação textual para compreender elementos essenciais como: liberdade, igualdade, feminismo, “cultura do estupro”, machismo, patriarcado, opressão, etc.. O conhecimento  também liberta e salva!!

Uma fala de Rosa Luxemburgo pode abrir o caminho para o aprofundamento, no tema:
“Por um mundo onde sejamos socialmente iguais, humanamente diferentes e totalmente livres.”
 Rosa Luxemburgo (1871-1919)

De cá, peço ao Universo que apague as marcas da alma daquela menina (e de tantas mulheres); que abafe os sons grotescos que possam povoar seus ouvidos; que lhe devolva a vontade de viver e ser livre.
Eu choro...


Erika Pók Ribeiro




domingo, 3 de abril de 2016

Da inefável labuta de ser e aceitar-se.

     


       Engana-se aquele que se contenta em ser, num burocrático e insípido exercício da existência. Antes, faz-se necessário ter-se por inteiro - das entranhas aos  pelos - num antropofágico ritual de devorar-se constantemente. 
       É vital engolir-se, paulatinamente, um tanto a cada dia - ou em tragos fartos - se assim se fizer inevitável. Comer-se, num rito liberto de quem sabe o quê e para quê é. Provar-se a fundo, estando disposto ao amargo ou à leveza do que em nosso âmago habita. Sentir-se em consciência plena, encarando as reentrâncias disformes, os fios energizados em perigo, os contornos fragilizados, a fim de evitar que o azedume se instaure, se espalhe e nos transforme naquilo que não pretendemos. A labuta de ser requer coragem para degustar-se e, principalmente, acertar os temperos interiores para não servimo-nos ao outro com gosto travoso ou demasiadamente adocicado.
       Não há que se camalear os espinhos que lhes rasgam a pele, mas previnem ataques. Também não carecemos forjar uma flor que não se pretende ser/ter. Do contrário, é a nossa essência que nos torna especiais nesse Universo que mistura caos e luz. É ela que deve ser servida em brandura, seja aos de paladar apurado ou àqueles que não conhecem de sabores.
      Assim, devemos ser completos na essência metafísica que nos compõe; levando, tanto se possa, o verso leve que falta, o silêncio cura ou palavra afago. Devemos, sempre, adstringir nossa alma das misturas desastrosas, do que destempera e causa azia. Só assim, não seremos propagadores dos dissabores, das amarguras e bolores.
      Ser é um labutar constante que prescinde de coragem e de poesia, daquela pulsante, latente, que explode nas cores, nos braços, nos sons, no branco dos dentes que se desnudam sem esperar trocado. Ser é transcender aos limites, romper as caixinhas que prendem pessoas e engessam os versos. Ser é, antes de tudo, ter-se em harmonia, aceitando os contornos, os excessos, as discordâncias, mas, sobretudo, vigiando para não amargar-se.
       Ser é ir das vísceras às pálpebras num verso diário e teimoso.


Erika Pók Ribeiro


segunda-feira, 14 de março de 2016

Poesia Viva


Nasceu no rasgo sangrento
Da manhã,
Teimando sempre em 
Refazer a direção.
Brotou, serena, no grito rouco
Da dor penitente,
Que não se acanha e faz demora.
Resistiu!



A poesia não pediu licença!



A poesia diz

Numa objetividade de causar inveja

A qualquer prosa abalizada.
Não silenciou!




A poesia não eufemizou a ferida!

Despiu-lhe a casca,

Sem meia luz,
Ou verdades metades.
Sentiu na carne de seus versos vivos!




E ela rebrota, em cada fenda dos muros,

No mais ínfimo espaço entre retas,

Tangendo as moscas,
Refutando as névoas 
Que pairam inóspitas
Sobre os versos em transe!
A poesia grita!!




E eu sou a poesia!

Pók Ribeiro

terça-feira, 8 de março de 2016

Ser mulher é viver/padecer no imperativo.


   

            Ah! É uma menininha! Vai namorar meu filho! Não! Vai ser freira, filha minha não namora antes dos 21 anos. Aahh!! São tantos vestidinhos, lacinhos rosa... As bonequinhas, tão branquinhas de olhos azuis. Depois, as cozinhas em miniatura; aprendiz de "mulher do lar".
        Sai daí! Larga essa bola! Desce desse muro! Deixa esse caminhão pra lá; isso é coisa de "menino homem'!
        Isso lá é idade para namorar? Limpa esse rosto! Cresce essa roupa! Parece uma puta! Para de andar enganchada nos meninos! Prende esse peitos! Fecha essas pernas! Se dê ao respeito!
        Grávida?! Nessa idade?! É uma oferecida, desajuizada, sem valor! Culpa da mãe que não soube criar. Pensou em abortar?! Meu Deus! Assassina! Bandida! Merece morrer!
        Ainda não casou? 'Tá ficando coroa, depois, na velhice, vai ficar sozinha, sem ninguém para lhe amparar. Oxe! Já casou e ainda não teve filhos? Deixe de ser egoísta, fica só pensando em diplomas, depois vai se arrepender. Para ser mulher de verdade é preciso ser mãe. Até a cólica passa depois que pare. Cura endometriose também; isso é coisa de quem não pariu. 
        Vai só ficar, sem assumir compromisso? 'Tá pensando que ainda é adolescente? Que vulgaridade! Parece uma puta! Como pode, perdeu a chance do Mestrado, a promoção no emprego, pra ser mãe?! Que horror! Vai Amélia!
         Não acredito?! Esse olho roxo é de apanhar do companheiro. Fica com ele porque gosta de apanhar. Essas manchas, a tristeza, o abandono do emprego... Mas em briga de marido e mulher não meto a colher.
         Arruma esse cabelo! Usa um batonzinho! Perde uns kgs, sua gorda feia! Cadê o salto? Que desleixo, parece um macho. E essas tattoos? Ficou louca? Isso é coisa de vagabunda. 
          Vai parir? Parto normal que é bom! A natureza quis assim. Para de gritar, na hora de fazer não chorou! Com corte sim, o médico sou eu! Vai fazer cesariana?! Que fresca, não quer sentir dor. Não tá amamentando?! Malvada, sem coração! Guarda esses peitos, "senvergonha", aqui não é lugar pra amamentar!
           Você já é uma velha, mostrando as pernas! Balada é pra jovem! fazer crochê... Cuidar dos netos! Tu vai ficar aí, cuidando da casa e dos filhos dos outros? Quem pariu o Mateus que balance! Vá aproveitar a vida!!




                                   Êpa, que vida mesmo?! E de quem?!

        Não precisamos de um dia, mas de liberdade para sermos quem e como quisermos.


Erika Pók Ribeiro

domingo, 31 de janeiro de 2016

Seu corpo, suas regras ; Meu corpo, minhas asas!




Seu corpo, suas regras;
                                Meu corpo, minhas asas!


Sejam os padrões de magreza e os excludentes números de manequim, os tipos aceitáveis de cabelo e suas tonalidades, a cor da pele, a permissão de celulite ou sua condenação perpétua, até a imposição das tendências de moda, cor, acessórios, etc. o fato é que vivemos cercados e espremidos por regras que nos impedem de ser quem somos.

E quem somos, afinal? O que queremos?

Não são regras, apenas, as que obrigam à magreza, ao alisamento, ao clareamento, ao zero glúten... entre outras. O contra-ataque massivo a essas imposições também pode criar uma outra leva de regras e, independente da natureza, elas oprimem.

Antes de ser como quer a sociedade ou, de ser, extremamente, contrária ao que ela impõe, é fundamental ser como se quer. Ser é um exercício íntimo e requer, apenas, liberdade individual e amor próprio em doses imensuráveis. Não há regras, modelos, guias instrucionais para ser. Somos seres únicos e nossa alma, guardiã de toda essência, é quem guia (ou deveria guiar) nossas escolhas.

Constantemente ouço que estou “cheinha”, que meu cabelo “poderia estar menos bagunçado”, que eu poderia “usar um batonzinho” e outras verdades absolutas de quem segue as regras que não me definem. Sim, estou cheia de amor próprio, de autoconhecimento, de amor pela vida, de desejos livres, de lembranças lindas, de leituras maravilhosas; Cheia de cores, imagens e sons que me fazem; transbordando poesia...a poesia se derrama morna e aromatizada em mim. Eu estou cheia da liberdade que me permite saber quem sou e lutar, a cada dia, para ser melhor.  Cheia de marcas que a vida me deu e dá. O meu cabelo traz os sinais do vento, os dedos dessa liberdade que desalinha e me faz sorrir. Trago nos lábios a cor natural de todos os beijos que quis [e quero] dar, dos versos compartilhados, das canções ensaiadas, das orações ao Universo...Meus lábios são da cor de minha alma.

Quando se trata de carreira, relacionamento, filh@s, as regras e os inspetores se asseveram, embora mascarados. Escolher esta ou aquela profissão, fazer um curso renomado e optar, livremente, não segui-lo pode ser o Apocalipse para aqueles que vivem reféns dos padrões e do status (falso) que eles trazem. Relacionar-se por amor, sem observar raça, idade, gênero é colocá-lo no rol dos loucos, e eu amo a loucura e sua liberdade gargalhante!  Não ter filh@s e mesmo assim estar inteira, completa e feliz é, para as guardiãs da feminilidade sacra, um pecado sem perdão; eu, ainda bem, sei de mim, das minhas vontades e não tenho vocação alguma para santidades. Humana que sou, construo-me sobre as marcas dos erros que me aprimoram.

É que para minha alma e meu corpo não há regras, nem modos; há asas!!

Erika Pók Ribeiro




sábado, 30 de janeiro de 2016

Ensaio sobre pássaros

Ensaio sobre pássaros*


Os pássaros estão para o infinito, como os olhos para o azul. Há grandeza de pássaro em tudo aquilo que é impróprio para rótulos, regras ou frascos.
imagem do google 
Há dias, um pássaro de vidro tem visitado aquela tal árvore de origamis. Embrenha-se nas cores, faz canto nas formas; nas suas asas, uma infinidade de abraços se aquecem e se doam. E a árvore sorri com todas as cores e dobras que lhe constroem, fazendo do espinho que teima em futucar a pele, portal pro real.
Além de libertos, os pássaros são (des) fazedores  de mistérios: ora cantam para nascer o dia, ora assoviam para chamar o escuro. Se queres ser pássaro, haverá de saber de ventos que despertam a manhã e/ou ninam estrelas. Haverá de ser repleto de inconstâncias, tal qual a brisa que lhe passareia.
O que carregam no bico, além do canto, doce alento? Ah, trazem as sementes, que derrubadas em terra acre, farão brotar pés de vagalumes, galhos de mansidão noturna e uma porção de olhinhos miúdos que sorriem na luz da manhã. Bico de passarinho planta amor nos mais áridos cantos; e brota! Bico de passarinho é baú de poesia onírica.
Quem tem disposição para pássaro, desde cedo, deve saber que quanto mais alto e longe for o voo, mais carregado de azul será. Carece saber, também, que as árvores e suas copas mansas trocam as folhas, arrancam galhos e mudam. Cedo ou tarde, também o passarinho deverá deslocar seu ninho.
Todo aquele que se propõe a passarinhar deve ter inclinação para miudezas, tão amplas que rasgam, e das cicatrizes  ver nascer as asas. De igual modo, aquele que se descobre pássaro deve ter habilidade para amplidões; o vago-repleto do azul celeste. Não há de passarinhar quem não é oximoro constante.
E assim, o ser que pássaro se revela deve permitir-se sofrer de ventanias, de cantarolar liberto; deve abster-se de gaiolas, jejuar de relógios e donatários. Ser pássaro é des-ser de si e de todo outro ou ser com ele: todo.


Erika Pók Ribeiro
* Publicado originalmente na Revista Biografia em 2014


quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Gratidão

Aos meus pássaros da Árvore que dá versos

Da semente-poesia fez-se a árvore!
Um a um, os pássaros ajuntaram-se numa revoada
Transcendental,
Trazendo nas asas as cores de suas almas
e
na resplandecente face a marca diversa
de todas

as misturas vertiginosas do Ser.
Da árvore- verso fez-se o banquete
das deusas e

deuses
num transe poético
que paralisou o sol
e avermelhou o chão num perfumado
caminho

de pétalas acrobatas.
E, então, os pássaros libertos,
carregaram em seus bicos -
abertos caminhos-
toda a semente viva  que
se agiganta
nessa revolução.
Eu, pés nos pés dessa árvore,
carrego a magia dos versos plantados,
dos rastros castigados,

dos olhos em luz.
E,

num ritual versejado,
dou-te os versos em cores
e o 

sabor desse azul.

" Ika adobale ô"

Pók Ribeiro



terça-feira, 24 de novembro de 2015

Da agradável necessidade de estar só

(A árvore que dá versos)

De súbito, estar só, parece a maior de todas as penúrias a que um indivíduo está fadado. E não é!  Nunca estaremos - de fato- sós, porque em nosso íntimo latejam todos os gritos, as gargalhadas, os choros e as retóricas que não puderam ser libertas. Pululam os fantasmas, nossos eus, ainda em transe, e toda sorte de viajante que em nós repousa.

Em um mundo onde a conexão diuturna virou artigo de primeira necessidade e, estar feliz e bem disposto, nas redes sociais, é mais urgente que ser feliz na chuva ou no sol, o silêncio e o estar só foram condenados, sem chance de contraditório ou legítima defesa.  Certamente, o que incomoda e amedronta não são as ausências de corpos e vozes externas, nem tampouco os espaços da casa repletos de ninguém e paz. O que atemoriza é o contato íntimo e privado com si mesmo; é encarar-se despido de toda veste ou maquiagem e, mais ainda, é ouvir os barulhos impetuosos do nosso silêncio. Aquele que não convive bem com seus silêncios tagarelas e os vazios repletos de sua vida, não saberá ser livre e pleno na totalidade esmagante.

Há que se cultuar os espaços ocos de nossos ninhos, pois é lá, que revolta e imperiosa, pousa a poesia nossa de cada dia. Há, mais que tudo, que se respeitar os vazios dos ninhos outros, as tramelinhas que se fecham para o mundo, mas que abrem-se para o infinito de seus pássaros. Há que se esperar menos das asas alheias, mas doar a sua, para qualquer estepe ou repouso. Quem valoriza o seu próprio silêncio, saberá ouvir todas as vozes que ecoam no silêncio do outro.

Saber morar em si mesmo, dividir os espaços apertados da alma com a multiplicidade latente de eus que abrigamos e, sobretudo, alegrar-se com os vazios, abraçar as ausências, deixando que elas ventilem essa lotação interior, é ver brotar as asas que tanto se busca. Deixar o silêncio e a solidão escolhida, falarem em nós, é o exercício mais pleno do voo, é o contato mais doce e sublime com o azul que perfuma o Universo.


Erika Pók Ribeiro

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Espelho oculto


Como  você me pinta,
nem me toca;
Você não tem a tinta exata
da minha medida.
O que de mim você palavreia
nem me acorda;
Você não sabe o sangue  que
derrama do meu versejar.
São tintas suas,
De um verso teu,
Que nunca 
Bebeu do néctar que leveda
em minha alma.
É das minhas vísceras
 que nascem singelos traços,
do amargo dormente,  que
me anila
e
ruboriza,
do centro aos pés.
Eu sou toda  marca em sangue
que me escapa,
Todo contorcionismo doloroso
que me expurga o riso,
Toda analgesia cronológica 
que me devolve os versos.
Eu sou um eu de mim.

Pók Ribeiro






quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Sobre dragões




Num tempo de desembestados relógios, escravizando seres ávidos pela conquista do que perece, tem prazo, conservantes, corantes químicos, e fórmulas revolucionárias, torna-se ádvena quem insiste em brotar cores e asas no caos. Quem por espontaneidade não segue, encaretado, as ondas avassaladoras.
Nesse afã do ter, de mais e mais ser visto, vão os seres pisando flores que brotam risonhas do chão fumegante, cerrando os olhos – ou arregalando-os em susto-  para dragões, desconhecendo ou negando o amor.
Presos em engrenagens enferrujadas, de suas crenças obtusas, seguem robóticos desperdiçando todo o azul do céu, todo avermelhado que tinge olhos e aquece a alma numa tardinha poente. Seguem ávidos por uma chegada que nunca se alcança. Enquanto isso, quem se veste de cores miscigenadas, liberta cabelos ao vento e cria dragões num cantinho adornado com velinhas coloridas é visto com assombro, por não caber nos potinhos de conserva.

 - Você cria um dragão?
Se tem medo de fogo, certamente não saberá quão revigorante é arder nas labaredas do amor que abrasa. Se ainda teme a ferocidade, nunca há de ter encarado a vida, com olhos e braços abertos, numa disposição para sangrar ou flutuar. O dragão oferece poesia e dela vive.

- E o amor, acaba? E se acabar, como que a gente faz depois? Indaga um desses jovens elfos que perambulam por aí, ouvindo pássaros, tecendo cores em nuvens, adoçando os sábados sem pé. Rolo um vento leste em minhas memórias e, flutuando em palavras, vejo que apenas sei que amor nasce, cresce e ainda vive. Se morre? Nem quero saber!
Mas, pensando mais...Amor deve acabar também e, depois, substituímos por algo semelhante. Shampoo acaba, chocolate acaba, cabelo acaba...Então, amor deve acabar.(?)

 
- E dá pra perceber que ‘tá acabando? Continua o desnutrido elfo.
Deve perceber sim. Provavelmente vai ficando cinza, sem som, tão amarrotado  quem não se possa mais vestir, sentir, ouvir. É que amor não se compra para repor... A gente vai doando e recebendo, unindo bocas, braços e pernas até que ele se multiplique infinitamente.

-E se a gente guardar um pouquinho de amor na geladeira, pra se um dia ele acabar?
O amor não se dá com potinhos, zíperes ou conservas. Há que plantá-lo num caqueirinho, regá-lo com sorrisos, saliva de beijo demorado e gozo escorrido, cuidar para que as pragas estejam distantes; logo passarinho pousa nele, faz ninho e há de cantar pros teus sonhos.

- E quando não tiver mais riso, beijo ou gozo?
É que o amor brota e se abriga na alma; e ela não perece. O corpo é porta-voz da alma e se contenta com vaguidões, mas a alma necessita de amplitudes.

-Então amor não se acaba.
Assim que tiver a resposta, tratarei de contar aos passarinhos para que estes te cantem que o amor transforma. O amor planta asas e, se não estiveres disposto ao voo pleno, nunca saberás do amor. Eu já sei voar!

Erika Pók






sexta-feira, 5 de junho de 2015

Pipa

imagem google

Cabeça da Lua e pés a voar
Minha mãe assim quis,
Numa noite em prata:
Assim sou!
Não me dês canto de pássaro,
guardado à vácuo,
num silêncio abissal.
Não me traga flores mutiladas
Das suas asas,
Abortadas de suas cores,
Como se mata-borrão
fossem.

Não são!


Economiza tua saliva quente!
Não gaste-a em palavras
Que o vento leva,
O sol amarrota e o sal,
Dos olhos, deixam puídas tuas roupagens.
Não se gaste.
Não deixe que a ferrugem
Dos espaços limitados,
Acelere o mofo,
A infiltração,
do sentir.
Não deixe esse zinabre derramar-se
e, num ritual burocratizado,
se espalhar,
carcomendo os risos livres,
Os gestos soltos,
os silêncios emancipados
E o meu amor-pipa.
(sem linha nem cerol).
Desenquadre-se!
Desenquarte seu amor!

Pók Ribeiro

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Versoluto


Desejam calar nosso grito!
Abafam-nos em tapumes lodentos
           de ameaça e repressão!
Mas o verso, forjado na luta diária
da sala,

árvore 
ou porão

não emudece.



Os poderosos temem o poder
do verso-ser
                     que planta asas e faz pensar.

Mas o verso, ensanguentado, 


mordido, grita:
Sou professora!
       Sou livre!!

Pók Ribeiro