quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

Sobre discurso, patriarcado e caos




O discurso é caracterizado como um sistema de signos e ideias que permite a construção de textos variados, regido por normas e assumido por um determinado sujeito - ou vários -  que pretende(m) agir sobre uma situação ou outros sujeitos, num dado contexto e interrelacionando-se com outros discursos.  (CHARAUDEAU, Patrick e MAINGUENEAU, Dominique, 2004). Assim, toda fala/discurso parte de um sujeito enunciador que incorpora suas experiências, crenças, comportamentos e ideologias nesse discurso, ou seja, manifesta o seu ethos. Por outro lado, os interlocutores, envolvidos na ação discursiva, reagem também com base em seu contexto e construções identitárias, complementando, promovendo a produção , circulação e reconhecimento desses discursos.

Logo, sendo o discurso uma construção contextualizada e interativa, carrega em si não só as marcas de um dado contexto sociopolítico e histórico, mas sobretudo as nuances ideológicas e comportamentais dos sujeitos discursivos envolvidos - enunciadores e enunciatários. 

Em uma sociedade patriarcal, de base colonizadora, como a nossa, que outorga o poder inquestionável dos homens, brancos, sobre os demais sujeitos, impera um discurso excludente e machista, marcado pelo silenciamento de grupos marginalizados, entre eles as mulheres, mesmo que esse discurso seja vago, deficiente ou temerário. A nossa história recente ilustra, abundantemente, essa prática, tendo em vista que a ex- Presidenta Dilma foi vítima de práticas misóginas que vigiavam e ridicularizavam seu discurso, distorcendo falas, deturpando ideias e transformando pequenos deslizes verbais em achincalhamentos abissais. Era - e é - o cerceamento à voz da mulher, a anulação da sua identidade, a proibição da sua existência ativa na política nacional, com aval da grande mídia e dos fugitivos das aulas de Sociolinguística.

Hoje, o presidente eleito por grande parte da sociedade brasileira; parte essa que comunga da sua ignorância, preconceito, brutalidade e insuficiência intelectual, apresenta um pseudo-discurso deficiente, inócuo, marcado pela repetição de pequenos enunciados decorados, desarticulados e carregado de palavras-chave que destrancam a ignorância dos seus enunciatários : "ideologia de gênero", "comunistas", "Venezuela", "família cristã","pátria" ; são, apenas, gatilhos de ódio que nada revelam sobre o desenvolvimento do país. Porém, mesmo diante de toda essa incapacidade linguística, seu poder discursivo não é questionado, julgado ou violado. O tal presidente pode dizer o que quer, livremente, porque mesmo sendo incompetente é homem e a ele tudo é permitido.

Em Davos, no importante Fórum econômico mundial, esse presidente protagonizou o maior vexame discursivo, utilizando, precariamente, 6 minutos tempo a ele destinado. Desarticulado, desengonçado, evasivo, superficial, seu discurso reflete o obscurantismo e anacronismo em que estamos submersos, além do seu desconhecimento acerca da realidade do país que ele presidirá. Recebeu algumas críticas, mas muitas defesas, afinal, ele é homem cis branco e, em razão disso, tudo pode.

Inevitável não comparar... Seus eleitores são aqueles que reclamam da redação do ENEM, justamente porque não conseguem interpretar o tema, articular argumentos críticos de modo coeso e coerente nas 30 linhas destinadas. Se fazem apenas 6 linhas do texto, são desclassificados por não cumprirem o limite mínimo... Alguma semelhança?

Pók Ribeiro



segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

Então, é Natal?

Lapinha - Arquivo pessoal


Nesse estrebuchar dos tempos, liame infinito de prelúdio e saudade, dou-me ao direito de desanimar e chorar os umbus que a borboleta chupou antes de mim. Deixo-me, inteira, à liberdade do silêncio e das ausências por pura falta de ânimo e de fé nas pessoas sem fé. (E?)


Depois de tantos sapatinhos na janela, de pés crescidos e cansados, de caminhos trocados e casas mudadas, sem janela e sem vontade... Depois de portas silenciadas ao esfriar das cinzas do velho fogão de barro, já não escuto o badalar de qualquer sino - mudo, nem as cantigas desafinadas e risonhas que faziam belas as noites.

Mudamos.


E agora, sob o manto-sangue da luta dou-me à prerrogativa de estar em silêncio e comunhão com os borregos do presépio que se desenha, desde que a casa sorria e a ovelha sem juízo pelejava pra devorar o verde plástico da árvore destinada ao Natal.

Dou-me em presente a mim, banhada em alecrim da Lagoinha e despida de qualquer sentimento amargo ou que me tire o ar; já me bastam as insuficiências respiratórias que as poeiras dos calendários me deram.

Dou-me ao Universo, sem os rótulos nem medidas impostas pelas agências e institutos reguladores. Quem quiser que se autorregule. Dou-me assim, despida, carregando, apenas, as marcas que ele próprio me deu a cada riso, choro ou queda. Marcas de mim e das que em mim viveram - e vivem.


Dou-me inteira, com essa alma ainda assim remendada e os joelhos rôtos da teima. Assim livre, assim imperfeita, pronta pro refazimento de todo dia. Não dou-me à liquidação de ser tão somente hoje; serei sempre e Ele em mim.

Assim seja(mos)!

Pók Ribeiro






domingo, 4 de novembro de 2018

Coisas de madrinha

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Imagem do google - Maurício de Sousa - Turma da Mônica

Ao Álvaro,


Tornar-se adulto, aos moldes dos ditames sociais, é perder grande parte da alegria e liberdade de que nossas almas carecem. No adulto são incutidos medos, cismas, restrições e toda sorte de preconceitos, enquanto que a criança passeia pelos mais variados campos do seu imaginário, sempre livre e feliz.

"Madiiiinhaaa, vamos no poço dos desejos??!"

Eu fui. E fui não como a adulta moldada pelos padrões, que enxerga apenas construções de cimento e aço, plantas ornamentais e frutíferas, sol escaldante. Fui como quem quer ser levada ao poço dos desejos por uma pequena mão de criança. Uma borboleta que se deixa levar pelo vento... Eu fui!

Chegando ao poço dos desejos, juntamos nossos dedos indicadores e desejamos. Cada um com a sua força interior e ele com mais pureza que eu. Enquanto eu silenciava, tentando me afastar dos barulhos da alegria alheia, para assim acriançar-me mais, ele pedia, em balbucios, mais doces, bombons e a aparição de um duende.

Que mais eu podia querer também?? Ficamos ali, alguns minutos, absortos na magia daquele poço descoberto pelos olhos desnudos de criança, esperando que o duende viesse nos acenar. Ficamos mais... E nada. Fazia muito barulho ao redor e o duende devia ter ido para outros poços, de desejos mais profundos.

Saí de lá mais magia que matéria; mais "madinha" que humana; mais menina ... E aquele menino sabe que, às vezes, preciso ser um tanto daquela outra, mas ele pega minha mão e corremos sem pressa, nem regras. Aquele menino sabe mais de magias e seres imaginários que as ideias adultas possam compreender.

Eu sou feliz com essa criança que sou. Eu sou feliz pela criança que ele é.

Pók Ribeiro
Madinha de Alvrinho





domingo, 28 de outubro de 2018

Não me dobro!





Amanhã, bem cedo, essa lágrima vai secar e - se teimar - o sol vai lambê-la.
E enquanto o sol for caminhando e o lamento dissipando, eu vou erguendo esses ombros que sempre suportaram os pesos das minhas escolhas, o peso-leve dos meus desejos, o peso-asa das minhas lutas.


E quando os meus passos forem se firmando no caminho que escolhi -e consegui depois de livrar-me de outros pesos - eu vou sorrir; sim! Eu vou sorrir porque eu ainda tenho pés, mãos, livros, gritos e ombros de suportar o mundo. Eu vou sorrir, porque eu optei pelas existências plurais.


E depois, quando eu ainda caminhar mais, eu vou remoçar minha força, dar-lhe mais água pra aliviar essa desertificação. Eu vou resistir, porque foi isso que fiz até este instante!



Nunca foi fácil ser eu . Nem é. Essa eu nunca aceitou a mesa posta. Essa eu nunca concordou com a cartomante. Essa eu sempre foi além da cerca, da linha que delimitava os campos, dos símbolos que segregavam pessoas, das rotas que ditavam caminhos.

Essa eu é dada a subversões - e será!

Nunca aceitei o determinismo que impunham: mulher, pobre, nordestina, sertaneja, moradora do campo até os 16 anos, estudante de escola pública...depois mais determinismos: professora, estudante de universidade pública que necessitava de transporte ( por mais de 170 km diários), poeta, feminista...Gente!! Não me cabem os estereótipos! 
Eu não me dobro!

E amanhã, bem cedo, o vento me dirá pra seguir!
E vou!

Pók Ribeiro

sábado, 27 de outubro de 2018

Que amanhã virá?


HR Fotografias


           De tanto doer,
arrebenta 
                   e
                    O medo, antes atando
a goela
               se muda;
                       O olho inunda
                    e
estoura,
              Arrasta a liberdade de ser,
dizer,
                   escolher
                            e condena
 a vontade de amar,

                               
                          feito enxurrada de verão
irrompendo as imbocanas.


                       Esse mesmo medo me 
leva a resistir!

                   Não me dobro ao mal,
nem quando esse
                          apocalipse de amanhã
                                          chegar
                                      - se é que ele chega-!


Pók Ribeiro

enquanto posso gritar!


quarta-feira, 24 de outubro de 2018

Muirapiranga

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Pau Brasil - Tarsila do Amaral - 1924



Quando os homens chegaram
                    - alvos e másculos que eles só -

O Índio sabia que não era bom,
mas espelhos e balangandãs maquiaram
                      aquelas faces do mal.
Quando os homens devastaram a terra-mãe,
buscando o vermelho valoroso daquele pau,
O índio sabia que era mal

       e dançou toré
para expulsar Jurupari,
Mas aqueles homens brancos e viris

catequizaram até os demônios do índio,
e levaram outros paus,
mais vermelhos
e todas cores,
até que o verde se derrubou.

O filho daqueles homens chegou 

                - alvo e mau que ele só -
O índio,
O negro,
A mulher,
O povo liberto 

            sabe que ele não é bom,
mas a fumaça da ignorância,
e os Juruparis que repousavam noutro povo,
desmascararam suas faces do mal.
E parte desse povo, que também era mal,
dançou passinho

para louvar a guinada do Mestre Supremo do Mal.

Que Tupã nos Salve
                       e juntos, num Atiaru, afugentemos o mal
e saudemos
a liberdade de sermos múltiplos,

                                  vermelhos desse Pau-Brasil que nos fez.




Pók Ribeiro



Muirapiranga: uma outra denominação para a árvore Pau-Brasil;
Toré: ritual sagrado indígena que mistura dança, religião, luta e brincadeira, onde os participantes buscam integração com as forças da natureza;
Jurupari: demônio, na Mitologia indígena;
Atiaru: dança executada para afugentar os maus espíritos e chamar os bons.



domingo, 14 de outubro de 2018

Poesia antimedo

(HR Fotografias/www.hrfotografias.com.br)



E veio o medo, com seu dedo em riste,
lambuzado em sangue digno
e arregalou meus olhos
que teimavam repousar.
Veio o medo e enfiou suas garras

em minha garganta,
tentando arrancar palavras livres
de dizer
direitos.
Lá fora
- enquanto o medo estrebuchava
em minhas ideias -
uma tropa vazia,

com miolos carcomidos,
repetia odes antilógicas,
antividas,
em louvor ao seu deus tétrico.
E pelas ruas, os depositários do Medo,
afiançavam seu mal,

distribuíam seu veneno salivado
em cartas falsas de um baralho escatológico.
O medo rasgou minha pele
colorida,
ruminou no meu chão-identidade,
ameaçou meu gato que dormia
em sua sabedoria animal.
O medo me disse sobre o meu dizer,

apenas disse,
Meus ouvidos de motim
não ouvem o medo.
Insubordinemo-nos

que ainda há tempo sem dedos de medo.


Pók Ribeiro

terça-feira, 9 de outubro de 2018

Desapropriados da voz

Foto minha, enquanto posso ser eu.



Tenho pensado nos silêncios construídos, por anos, e agora inaugurados com pompa; nas palavras desapropriadas de si mesmas e desalojadas de línguas sedentas por existir.

As palavras tiradas de seu lugar de origem,arrancadas da voz-existência de quem é seu... E do silêncio imposto, do não dito compulsório, brotam as fumaças que ocultam a identidade, que atravessam a legitimidade daquelas/es que criam palavras. A violação da voz, tentáculo da violência simbólica da qual nos fala Bourdieu, acaba por gerar sujeitos assujeitados¹, que não se posicionam, não produzem sentidos, visto que são bombardeados por diversos discursos, sobretudo os dominantes, e por eles posicionados dentro de uma estrutura social opressora e excludente.

Há nesses silêncios, por vezes amontoados nas vitrines digitais, tantos epitáfios, marcas de uma eutanásia dolorida, que mais que o verbo estrangula o ser e atira em cova rasa a pluralidade das identidades.

E assim, os sem- palavra vão avolumando o contingente dos sem-lugar; reforçando o cabedal dos latifundiários da voz e posicionamentos. E da palavra apropriada por uns, alojadas em improdutivos sótãos do poder, vão brotando os destituídos de espaço, os marginalizados do devir.

Repenso meus gritos, a inflexão das minhas orações, os atos de minha fala ... Se subordinam a quem?! Interconectam com quais outros discursos? E o que, juntos, dizem?! Calam outras vozes?! Mais que palavra solta é preciso ser elo, discurso liberto e construtor de espaços e posições, igualmente, libertárias e plurais.

 
¹ Conceito apresentado por Michel Pêcheux;
Pók Ribeiro

* Texto nascido de reflexões sobre o atual cenário, a partir de provocações das aulas de Introdução à Sociolinguística - PPGESA/UNEB

terça-feira, 2 de outubro de 2018

Eu falo!! #ELENUNCA!


(HRFOTOGRAFIAS)


Não!


Não poderia deixar que esse sufocar do tempo - e das coisas que o consomem - me arrancassem o direito à ação. Não permitiria, jamais, que a burocratização da vida me entregasse à isenção. Eu falo. E de/por falar, (re)construo quem sou; vou atirando ao amontoado das inutilidades essas capas de existência que o sistema nos cobre - e cobra.

Quando os sistemas dominantes se robustecem, alimentados pela ignorância voluntária daqueles que padecem, sem se dar conta, na fila do esmagamento, não nos cabe o silêncio, as (pseudo)neutralidades cheirando a lavanda; isentar-se quando as liberdades são colocadas em risco é tal qual erguer a mão do cerceador. Então eu falo.
Sendo e sabendo quem sou, e quem me são, não  me caberia outra conduta que não a do grito, a da bandeira, a do pé no chão quente, onde a flor brota teimosa. Onde há misoginia, devotamento da violência e da maldade, endeusamento da repressão às múltiplas identidades, não cabem silêncios. É preciso lançar mão da palavra que combate, do braço que hasteia a luta, do argumento que descortina a farsa e anula o ódio. Por isso falo.

Pela educação libertadora que milito, pela certeza da leitura que salva, pela poesia-asa que professo, pela liberdade de ser mulher que respiro; eu falo! Eu digo não a esse poder sustentado em falos; egos falidos; auto-estimas flácidas.

Enquanto o fanatismo neanderthalensis  se espalha, encorajando os preconceitos e  maldades socialmente ocultadas, mas agora ancoradas numa possível representação legítima, não podemos guardar nossas vozes que acolhem,denunciam, que incluem e respeitam as diferenças. Não podemos nos dar ao luxo dos silêncios, nem das isenções. Então eu falo!

Ao machismo e seus defensáveis, não!
À misoginia e seus praticantes fervorosos, não!
À violência e suas mãos marcadas de sangue, não!
À ignorância alimentada pelas frases prontas e intransitivas, não!!
À maldade escondida na mesma mão que ergue livros santos, nãoo!!

 Eu falo!#ELENUNCA!

Pók Ribeiro

terça-feira, 10 de julho de 2018

O menos é mais: indagações dos ciclos findos - e abertos.


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Coelho de Alice no País das Maravilhas  e seu relógio - Fonte: google images



O compulsório - e avexado - findar dos ciclos vai nos ensinando que quanto mais esses  se cumprem, mais o pouco  basta. Se compreendermos uma partícula do grande mistério que é nosso trânsito por estas terras, perceberemos que nossa alma se agiganta à medida que a nossa gana pelas materialidades diminui. Ainda bem.

Mesmo que os números do manequim aumentem, que os ponteiros da balança se alarguem na tentativa de  abarcar o peso, a  gente descobre que não precisa mais de todas as roupas guardadas à naftalina. Bastam aquelas que gostam das nossas formas e respeitam nossos contornos. Ou melhor, qualquer nudez basta.

Num mundo onde os dicionários vão inchando e as pessoas falam - e mais-  até pelos dedos, aposentando os encardidos cotovelos, a gente percebe que silenciar é salvador. A cada palavra não dita no tumulto das vozes e dos egos, a alma respira aliviada pela língua em repouso. [Uma menininha de olhos enormes me ensinou que a língua também precisa de descanso.]

Pouco me basta para ser feliz tanto. Quanto menos analgésicos empurro goela abaixo, mais sorrisos escancaro; mais versos espalho; mais sono; mais sonhos; mais luta. Quanto menos vejo o noticiário, menos sei das tragédias, menos vomito de nojo de todas as mentiras que a mídia vende.

De tão pouco precisar, agora, até meia dose me embriaga. Não preciso gastar tanto com cerveja, basta um copo e já estou sobrevoando os espaços entre o céu e os meus cabelos. Logo, estarei delirando ao pisar na tampilha.

Quanto mais me atiro, sem aparador, aos livros, mas entendo que pouco sei.

E enquanto esse ponteiro vai girando, embriagado, acelerando, menos tempo terei por aqui. É a única conta que me dei conta. Quanto mais vivo, mais morro para viver mais.


Pók Ribeiro


segunda-feira, 4 de junho de 2018

Los cráteres


(Foto: Pók Ribeiro -HR Fotografias)

Crateras abertas alargam afastamentos, distanciam chãos firmes e impregnam de ruídos e ecos, a fala. As crateras distanciam os olhos, a pele, e enclausuram os que restam em cada espaço- universo por ela entrecortado.

Não bastassem todas essas crateras que o sistema abre, fazendo nelas escorrer o sangue dos nossos sonhos mais límpidos e leves, ainda vamos nós, reproduzindo as velhas lições daquela sua cartilha, que nós mesmo condenamos, e abrindo outras tantas valas entre nós.

E aí, por mais que se deseje o resgate, a companhia, daquele que cavou em seu redor trincheiras profundas e nelas jogou todo o seu amargo silente, não nos cabe invadir seu espaço sem que ele consinta. Não nos cabe a régua ou o compasso, porque não é nossa a medida. Somos seres sem dimensões auferíveis, porque estamos além desse envolto que se espreme nos rótulos. O que nos é transcende e precisamos salvá-lo!

Neste vasto campo minado de covas, vão se derramando os amargos do existir; os pesos daqueles que teimam em carregar um ser que não são; as tiras cortadas pelas línguas dementes. Esse vale é nefasto, mas em sua superfície adormecem flores miúdas e até corre um pequeno filete de água e chumbo. Não se engane... Há mais navalha nesse vão amplíssimo das palavras, mas também há um doce barato, um leve topor de dipirona vencida.

Cada um é o próprio salto do abismo que cavou.

Ainda há asas, vocês viram? ( E não está nos jornais.)

Pók Ribeiro


quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

Bicho-gente

Graussá [bicho que limpa o lixo que o humano joga na praia ]- Ponta da Tulha - Ilhéus/BA



Deu por ruminar cada palavra engolida naqueles dias de alma longe. Coisa de bicho que num silêncio necessário – e doído - não sabe tragar o bolo de uma só vez. Bicho que precisa fragmentar as partículas de seu ser, vagarosamente, despedaçar e sentir entre os dentes e língua o amargor ou o doce dos contatos. Bicho que prefere plantas brabas e sabe que respirar também dói.

Ritual feito, nunca se findara. Sempre sobrava um amargo, um fiapo entre os dentes, aquela massa amarga no canto do siso e daí para uma nova/velha remastigação era um salto – para o caos. Palavra engolida e ruminada pesava demais. Por mais que pelejasse para expulsá-las, sempre ficava um resto. O resto dormido, juntado ao silêncio do outro dia – e do outro e do outro – azedava tudo.

Compreendeu, por fim, que tinha carências múltiplas. Não dependia de ninguém, por certo; também não lhe faltava nada dessas tais materialidades. Carecia dela mesma, da alegria ingênua que já lhe habitara, da loucura ébria de ser bicho de asa. Bicho que voa leve. Bicho que canta a qualquer hora. Da sina de bicho ser, não fugiria. Ninguém doma sua natureza.

Ainda assim faltavam os ventos, dos bons e leves. Faltavam as cores dos olhos e dentes. Cores de gente também leve, mais pássaro que gente-bicho. Faltava a dança, o corpo bobo, fluído, embriagado de paz.


A ventania de Iansã trará e amanhã, bem cedinho, nada mais faltará!


Pók Ribeiro

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Hoje, mais um silêncio de mulher...



(ACERVO EX-ALUN@S EREMCC)


Hoje, enquanto a vida pegava ônibus, em seu ponto sem cobertura, e seguia dormente para mais um livro de ponto, centenas de mulheres eram espancadas, violentadas, ultrajadas. Enquanto em mim, um grito engasgado soluçava revoltado, outras mulheres morriam de uma morte não prevista nas Escrituras.

Hoje, enquanto a Arte apanhava por não ser bela, recatada e do lar, uma menina atleta não foi à final do torneio de vôlei. Ela não gritou, não deu cortadas magníficas, não xingou a bola caída além da linha; seu suor não orvalhou o chão da quadra, sua força não fez pontos de saque, não vibrou escandalosamente com mais um troféu. Nem na arquibancada ela pôde estar.

A menina – e tantas outras – foi arrancada da vida pelo poderio masculino de arma em punho e misoginia latejando nas veias. A mão que decidiu pelo seu fim é mão de homem. A mesma mão que aponta, toca sem permissão, abafa a fala e o grito, espanca, esgana e, em seguida, lavra alvará de soltura.  À menina, foi negado o sopro da vida, por um homem – cidadão de bem- , cujo ofício era proteger a sociedade e garantir a ordem pública.

Hoje, esse meu grito não dorme. Nos dias que seguirão, também ele será insone e se avolumará. Meu grito pela menina, pelas outras, por mim, por aquelas que ainda virão a esse mundo destroçador de mulheres, não calará!

Hoje, Katharine gritou em mim:
                                JUSTIÇA!
                                RESPEITO!


Pók Ribeiro


Poeta, professora, cronista, aprendiz de fotógrafa, gente que sente- e muito!

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Aceita um café?

          
Arquivo Pók Ribeiro
           É imperativo - como essa frase - que respeitemos o outro na sua totalidade, sobretudo, naquilo que nele nos parece destoante ou desagradável. É importante compreendermos, de fato, que o outro – assim como nós - é um universo particularíssimo, cheio de estranhices que o tornam singular, e por mais que saibamos dele, nunca será tudo [melhor assim].

                Empatia é mais que o simplório conceito de “colocar-se no lugar do outro”; é deixar que o outro seja, como ele prefere ou como pode, diante das circunstâncias da vida, sem cobrar-lhe postura distinta, reação, adequação.

               Beira à violência escolher “o melhor” para outrem, visto que cerceia a sua liberdade de ser e, inclusive, de não ser. Constrangê-lo a experimentar o que não lhe apetece, a sentir o que não deseja, a sorrir quando a alma chora, a esboçar satisfação no desespero, cobrar-lhe leveza na carceragem das convenções é violência, mesmo que o animus nunca seja esse, pois aquilo que me adoça a boca pode ser fel a quem me cerca.

                 Vivemos numa estranha conjuntura que pretende igualar (re)ações, preferências, gestos e até discursos, ao passo que desiguala, miseravelmente, os que ousam diferir dos ditames mofadores de riso, esses velhos estilingues camuflados de gentileza que visam nos tornar inexpressivos seres seguindo a massa. Cá, do meu infinito, particular em verdade e expressividade poética, amargo ante as investidas externas em tornarem-me mais uma; mais doce, mais riso ...Sem nenhuma vocação para Assum Preto, eu vos pergunto:

                - O que é que eu faço com essa dor, aqui?! Você não vai querê-la, porque ela é minha!

              - E o que é que eu faço com esse grito todo?! Não vou abafa-lo, pois ele diz de minha alma!

            É vital respeitarmos as normalidade, loucuras, extravagâncias ou reclusagens do outro, sem julgamentos kafkanianos. A liberdade é a essência maior de todo indivíduo, sem ela somos apenas espectros, vagas nuances de um ser que nunca existirá, em plenitude. Deixa que o outro seja como ele melhor quiser; a ti cabe ser o melhor que decidires.

               Eu curto um bom café forte, bem quente e amargo.
               O que você prefere?


Pók Ribeiro
            

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Extratos filosóficos da normalidade


(Expriência Sensorial - Exposição Cícero Dias - Fundação Cultural Banco do Brasil - SP)



        Aquilo - ou quem - que cabe no conceito de normalidade, precisa estar revestido de toda couraça definidora, pré-fixada nos modelos ideológicos de quem julga. Logo, "ser normal" ou "estar normal" é um estado existencialista e social daquele que conceitua; nunca do ser/objeto conceituado. 
      É um exercício pleno e bastante construtivo, perceber-se dançando na corda bamba dos (pré)conceitos e julgamentos alheios. Através do que eles pensam que enxergam em mim, abro caminhos mais profundos em meu eu; debruço-me numa claridade tanta, sobre o ser que eles nunca saberão que sou, visto que a sombra das suas definições, impedem uma visão mais "iluminada". Se sou ou não normal, não me interessa, já há muitos incumbidos da pesada missão dos rótulos. 
         Outro dia, num desses telefonemas rotineiros para clínicas, vi-me, atônita, frente a esse tal conceito de "normalidade" e, confesso, fiquei sem palavras, provavelmente mais pálida que de costume. Pego o telefone empoeirado, disco os números, pausadamente, alguém atende e, ao ouvir minha solicitação, transfere-me para o setor responsável.

           - Qual o nome da Senhora??
           Falo meu nome, com uma calma que não me é nata.

           - Erika normal??! Indaga a moça.
           Em milésimos de segundos minha cabeça gira e parece que bebi toda a tequila escondida, há meses. Normal?? Como assim?? A pergunta da perversa atendente vai fazendo eco nas crateras, em ventania, da minha mente. "Erika normal?", "Erika normal?","Erika normal?"
    Lembro que limitei-me a responder, meio engasgada, resfolegando:
           - Erika sem "h" e com "k".
          
           Não satisfeita com o mal estar que causara, ela sentencia:
           - Ah, Erika normal!

       Telefone desligado, fico eu em silêncio, enquanto um barulho se agigantava em minha mente. O que fizera de mim um ser normal? Estaria no alfabeto, o liame da normalidade?
       Passado o susto, vento rodado, alma em perfume, recuperei o riso e graça. Nessa viagem alfabética, um tanto etimológica, sobre a tão frágil "normalidade" humana, fui além das letras - muito mais do que almejaram os egípcios -, passeei, levemente, pelas entranhas do meu ser e vi-me, ali, numa construção infinda, buscando sempre a direção mais leve do vento, o rumo mais manso pras asas. Olhei-me de perto.
       E, de perto, o que somos?



Pók Ribeiro


segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Reflexões Enenianas

Arte de Lorrayne, ex-aluna 

“Tirei X na redação do ENEM, obrigada, professora!”


A docência, como qualquer outra profissão, possui seus ônus e louros; que graça teria se assim não o fosse?! Porém, propositadamente, com fins visivelmente opressores, começaram a tratá-la como um sacerdócio sobre o qual o seu mártir – o professor – deve se doar completamente, de modo abnegado e ilimitado. O professor deve abrir mão de sua existência “em nome da missão que lhe foi confiada”. Que bonito seria se isso fosse por respeito e não por exploração e imposição da inércia.

Costumeiramente, em tempos de resultado do ENEM e outros exames, recebo, com os olhos afogados e os pelos agitados de emoção, notícias alvissareiras do desempenho dxs alunxs, agradecimentos e até relatos de reconhecimento bem marcantes. “ Tirei 700 na redação”; “ Tirei 960 na redação”; “ Só lembrei de você naquela questão”; “Parece que ouvia sua voz”. Isso é que nos alimenta, completa o pote do gás que tende a esvaziar, mas não dá para ser hipócrita e esquecer todos os percalços por trás de um bom resultado. Há mérito do professor, sim, inegavelmente, mas há também do aluno e de sua família que travou batalhas que só ele/s conhece/m. É importante refletirmos sobre os caminhos desses resultados.

Infelizmente, os que (in)gerem a Educação visam apenas propagandear índices, resultados, sem importar-se com a verdade deles. Eles preferem investir, absurdamente, em sistemas que robotizam o professor, obrigando-o a preencher plataformas moldadas com uma realidade que nem sempre corresponde àquela vivida em sala de aula. É mais importante para os “donos do sistema” que o SIEPE esteja preenchido no prazo estipulado, com frequências e registros de aulas diários, com notas e guias bimestrais, mas eles não se interessam pela qualidade e eficácia da aula, pela construção diária, pelos imprevistos que mudam os rumos do planejamento, pelas horas de preparação de material – e pela ausência deles -, pelas horas de correção, pelas dificuldades de execução, etc. etc.

A docência é a única profissão em que a formação continuada é tida como uma extravagância e é deixada de lado (não sendo proporcionada ou sendo sem qualidade e aproveitamento algum). Para os “donos do sistema”, não importa que o professor não tenha tempo para ler, estudar, pesquisar, isso é problema dele. Mais importante é dar conta do SIEPE em escolas sem ou com internet precária, com espaços desumanos e uma carga-horária gigante. Estudar para quê? Isso remonta à ideia inicial de sacerdócio, de doação e martirização, perpetrada, inclusive, pelos próprios professores que acabam aceitando a condição de coitadinhos, de subprofissão. Eu não! Orgulho-me de ser professora, livre e engajada!

Mais uma vez o bom resultado dos meus alunos me faz refletir, afinal, esse resultado é consequência do SIEPE preenchido em tempo hábil ou das horas que dediquei – e dedico – ao estudo, à leitura constante, à busca por inovações que chamem o mínimo, a atenção do meu aluno que vive num mundo repleto de novidades, fora do ambiente escolar?! O bom resultado dos meus alunos é consequência das planilhas que preenchi, mecanicamente, todos os bimestres com dados que nunca foram problematizados ou aproveitados ou dos cursos e especializações que tive que pagar para me aprimorar?! E o esforço desses alunos que passam o dia inteiro sem nenhum conforto, com parco material e alimentação, muitas vezes precária?

É importante ressaltar que o professor, assim como qualquer outro profissional, tem direito ao descanso e a sua casa não é - e nunca deve ser - extensão do seu trabalho. Não basta oferecer uma manhã, durante a semana, para que ele elabore atividades, estude, corrija 400 redações, preencha o magnânimo SIEPE, participe de uma possível formação. É necessário mais que isso! É fundamental que haja, de fato, respeito pela docência. É mais importante, ainda, que nos respeitemos enquanto profissionais.

Por fim, ainda há um lucro imensurável nisso tudo: o reconhecimento comungado à possibilidade de autoavaliar-me e aprimorar minha prática em busca de melhores e REAIS resultados. Afinal, as inúmeras mensagens de agradecimento e reconhecimento massageiam o ego, mas também deixam clara a importância do estudo constante, do refazer-se humanamente e profissionalmente. A gratidão é toda minha pela oportunidade de aprender, experimentar e construir, com meus alunos, essa educação que acredito!

Erika Jane Ribeiro – Pók Ribeiro
Poeta, professora, aprendiz de fotógrafa, gente que sente – e muito



quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Inadequada


(Heitor Rodrigues Fotografia  
 https://www.facebook.com/heitorrodriguesfotografias/?fref=ts)


Inadequo-me
Com um sorriso arregaçado,
Sem compostura;
Com as pernas abertas, em ventania,
Sentada pra mim.
Indefino-me
Sem cores da moda,

Com tendências da lua
E astros afins.
Indisponho-me
Nessa lama de regras,
Obtusas certezas de quem
Nem sabe de si.
Eu gargalho e desnudo
Da alma à pelves,
Do pé ao umbigo,
No trajeto que é meu.
Eu caminho pro vento,
Sem cabelos voados,
Com vestido bem leve,
Insinuando as estrias,
E os furinhos em desníveis,
Tatuados em mim.
Inexato-me completa,
Porque eu sou pra mim.


Pók Ribeiro

professora, poeta, aprendiz de fotógrafa, gente que sente ( e muito)