quarta-feira, 17 de maio de 2017

Extratos filosóficos da normalidade


(Expriência Sensorial - Exposição Cícero Dias - Fundação Cultural Banco do Brasil - SP)



        Aquilo - ou quem - que cabe no conceito de normalidade, precisa estar revestido de toda couraça definidora, pré-fixada nos modelos ideológicos de quem julga. Logo, "ser normal" ou "estar normal" é um estado existencialista e social daquele que conceitua; nunca do ser/objeto conceituado. 
      É um exercício pleno e bastante construtivo, perceber-se dançando na corda bamba dos (pré)conceitos e julgamentos alheios. Através do que eles pensam que enxergam em mim, abro caminhos mais profundos em meu eu; debruço-me numa claridade tanta, sobre o ser que eles nunca saberão que sou, visto que a sombra das suas definições, impedem uma visão mais "iluminada". Se sou ou não normal, não me interessa, já há muitos incumbidos da pesada missão dos rótulos. 
         Outro dia, num desses telefonemas rotineiros para clínicas, vi-me, atônita, frente a esse tal conceito de "normalidade" e, confesso, fiquei sem palavras, provavelmente mais pálida que de costume. Pego o telefone empoeirado, disco os números, pausadamente, alguém atende e, ao ouvir minha solicitação, transfere-me para o setor responsável.

           - Qual o nome da Senhora??
           Falo meu nome, com uma calma que não me é nata.

           - Erika normal??! Indaga a moça.
           Em milésimos de segundos minha cabeça gira e parece que bebi toda a tequila escondida, há meses. Normal?? Como assim?? A pergunta da perversa atendente vai fazendo eco nas crateras, em ventania, da minha mente. "Erika normal?", "Erika normal?","Erika normal?"
    Lembro que limitei-me a responder, meio engasgada, resfolegando:
           - Erika sem "h" e com "k".
          
           Não satisfeita com o mal estar que causara, ela sentencia:
           - Ah, Erika normal!

       Telefone desligado, fico eu em silêncio, enquanto um barulho se agigantava em minha mente. O que fizera de mim um ser normal? Estaria no alfabeto, o liame da normalidade?
       Passado o susto, vento rodado, alma em perfume, recuperei o riso e graça. Nessa viagem alfabética, um tanto etimológica, sobre a tão frágil "normalidade" humana, fui além das letras - muito mais do que almejaram os egípcios -, passeei, levemente, pelas entranhas do meu ser e vi-me, ali, numa construção infinda, buscando sempre a direção mais leve do vento, o rumo mais manso pras asas. Olhei-me de perto.
       E, de perto, o que somos?



Pók Ribeiro


segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Reflexões Enenianas

Arte de Lorrayne, ex-aluna 

“Tirei X na redação do ENEM, obrigada, professora!”


A docência, como qualquer outra profissão, possui seus ônus e louros; que graça teria se assim não o fosse?! Porém, propositadamente, com fins visivelmente opressores, começaram a tratá-la como um sacerdócio sobre o qual o seu mártir – o professor – deve se doar completamente, de modo abnegado e ilimitado. O professor deve abrir mão de sua existência “em nome da missão que lhe foi confiada”. Que bonito seria se isso fosse por respeito e não por exploração e imposição da inércia.

Costumeiramente, em tempos de resultado do ENEM e outros exames, recebo, com os olhos afogados e os pelos agitados de emoção, notícias alvissareiras do desempenho dxs alunxs, agradecimentos e até relatos de reconhecimento bem marcantes. “ Tirei 700 na redação”; “ Tirei 960 na redação”; “ Só lembrei de você naquela questão”; “Parece que ouvia sua voz”. Isso é que nos alimenta, completa o pote do gás que tende a esvaziar, mas não dá para ser hipócrita e esquecer todos os percalços por trás de um bom resultado. Há mérito do professor, sim, inegavelmente, mas há também do aluno e de sua família que travou batalhas que só ele/s conhece/m. É importante refletirmos sobre os caminhos desses resultados.

Infelizmente, os que (in)gerem a Educação visam apenas propagandear índices, resultados, sem importar-se com a verdade deles. Eles preferem investir, absurdamente, em sistemas que robotizam o professor, obrigando-o a preencher plataformas moldadas com uma realidade que nem sempre corresponde àquela vivida em sala de aula. É mais importante para os “donos do sistema” que o SIEPE esteja preenchido no prazo estipulado, com frequências e registros de aulas diários, com notas e guias bimestrais, mas eles não se interessam pela qualidade e eficácia da aula, pela construção diária, pelos imprevistos que mudam os rumos do planejamento, pelas horas de preparação de material – e pela ausência deles -, pelas horas de correção, pelas dificuldades de execução, etc. etc.

A docência é a única profissão em que a formação continuada é tida como uma extravagância e é deixada de lado (não sendo proporcionada ou sendo sem qualidade e aproveitamento algum). Para os “donos do sistema”, não importa que o professor não tenha tempo para ler, estudar, pesquisar, isso é problema dele. Mais importante é dar conta do SIEPE em escolas sem ou com internet precária, com espaços desumanos e uma carga-horária gigante. Estudar para quê? Isso remonta à ideia inicial de sacerdócio, de doação e martirização, perpetrada, inclusive, pelos próprios professores que acabam aceitando a condição de coitadinhos, de subprofissão. Eu não! Orgulho-me de ser professora, livre e engajada!

Mais uma vez o bom resultado dos meus alunos me faz refletir, afinal, esse resultado é consequência do SIEPE preenchido em tempo hábil ou das horas que dediquei – e dedico – ao estudo, à leitura constante, à busca por inovações que chamem o mínimo, a atenção do meu aluno que vive num mundo repleto de novidades, fora do ambiente escolar?! O bom resultado dos meus alunos é consequência das planilhas que preenchi, mecanicamente, todos os bimestres com dados que nunca foram problematizados ou aproveitados ou dos cursos e especializações que tive que pagar para me aprimorar?! E o esforço desses alunos que passam o dia inteiro sem nenhum conforto, com parco material e alimentação, muitas vezes precária?

É importante ressaltar que o professor, assim como qualquer outro profissional, tem direito ao descanso e a sua casa não é - e nunca deve ser - extensão do seu trabalho. Não basta oferecer uma manhã, durante a semana, para que ele elabore atividades, estude, corrija 400 redações, preencha o magnânimo SIEPE, participe de uma possível formação. É necessário mais que isso! É fundamental que haja, de fato, respeito pela docência. É mais importante, ainda, que nos respeitemos enquanto profissionais.

Por fim, ainda há um lucro imensurável nisso tudo: o reconhecimento comungado à possibilidade de autoavaliar-me e aprimorar minha prática em busca de melhores e REAIS resultados. Afinal, as inúmeras mensagens de agradecimento e reconhecimento massageiam o ego, mas também deixam clara a importância do estudo constante, do refazer-se humanamente e profissionalmente. A gratidão é toda minha pela oportunidade de aprender, experimentar e construir, com meus alunos, essa educação que acredito!

Erika Jane Ribeiro – Pók Ribeiro
Poeta, professora, aprendiz de fotógrafa, gente que sente – e muito



quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Inadequada


(Heitor Rodrigues Fotografia  
 https://www.facebook.com/heitorrodriguesfotografias/?fref=ts)


Inadequo-me
Com um sorriso arregaçado,
Sem compostura;
Com as pernas abertas, em ventania,
Sentada pra mim.
Indefino-me
Sem cores da moda,

Com tendências da lua
E astros afins.
Indisponho-me
Nessa lama de regras,
Obtusas certezas de quem
Nem sabe de si.
Eu gargalho e desnudo
Da alma à pelves,
Do pé ao umbigo,
No trajeto que é meu.
Eu caminho pro vento,
Sem cabelos voados,
Com vestido bem leve,
Insinuando as estrias,
E os furinhos em desníveis,
Tatuados em mim.
Inexato-me completa,
Porque eu sou pra mim.


Pók Ribeiro

professora, poeta, aprendiz de fotógrafa, gente que sente ( e muito)

domingo, 11 de dezembro de 2016

Liberté


foto Erika Pók - Rio Vermelho - SSA

Destempero amuado
na fala,
no gesto,
no olho ruim,
dessa gente que aponta.
Tortura em palavras,
e
Assevera
em sentença, 
sem contradito, aplicada.
Desapontam,
Destroem,
Descontam no outro
a amargura,
que sentem em si escorrer.

É uma gente perversa,

arrotando verdade
nadinha ilibada,
comendo as mentiras que a mídia,
lhe forja,
em banho-maria.
É uma gente que brada,
estufando o peito, latejando de ódio
espumando sua raiva,
num ciclo doente.

Essa gente perdida,

vagando num ermo
de tudo sem nada,
de palavras e atos,
sem verdade vivida.
Essa gente armada,
amarga,
merece demais,
é  amor em bocados,
que escorra nos lábios, 
que se plante em sorrisos
e no gesto,
na fala,
refaça a essência,
reconstrua essa gente que aponta
e mata:
a alma da gente.


Pók Ribeiro
EU NÃO QUERO MAIS 64

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Escola com Poesia e Vida!

Para que possamos ter poesia e liberdade na escola e na vida!! Que a poesia livre prevaleça!!
Imagem retirada do google imagens

Escola sem partido (?)

A Educação Brasileira caminha, a ligeiros passos, para a guilhotina, como se praticava, no início da colonização exploratória e opressora do nosso país, contra todos aqueles que contrariassem os interesses da Corte e de seus defensores. O Projeto de Lei 193 de 2016, de autoria do Senador Magno Malta, cuja biografia não se relaciona, nem de modo indireto, à Educação, visa incluir na LDB a ideologia (sim é ideologia) do movimento “Escola sem Partido”, cujo objetivo principal e mais evidente é proibir qualquer manifestação em prol da diversidade e da liberdade de ser, muito embora usem de justificativas, fingidamente, em favor da liberdade de aprender.
Acometidas pela síncope da intolerância e da ignorância crônica, muitas pessoas passaram a propagar essa ideia, como se professoras e professores fossem carrascos obsessores que incutissem ideias absurdas na mente de seus alunos, que pregassem a barbárie, a desobediência, a politicagem, a promiscuidade ou a intolerância religiosa. Paradoxalmente, ao intentarem limitar a prática docente, essa tal ideologia posiciona-se pela intolerância, pela opressão e repressão, sendo de fato um “partido”, posto que, coletivamente defendem uma ideia. Outrossim, as leis (municipais, estaduais e federais) que regem o serviço público e, por conseguinte, a docência, já preveem as punições adequadas para os possíveis casos de desvio, abusos ou infrações cometidas pelo professor, sendo desnecessária e abusiva qualquer outra.
A própria denominação “Escola sem Partido” já é, por si só, o maior dos engodos e uma tentativa, deslavada, de enganar e manipular. Quando dizem “sem partido” tentam aludir à isenção, o que não ocorre. Quando estipulam vedações, quando determinam o modus operandi do professor e da escola, quando limitam a liberdade de expressão do professor, quando elegem o que os alunos devem ou não aprender, sem serem profissionais da educação, eles têm sim um partido! O partido desses indivíduos é o conservadorismo aniquilante, é a opressão, o atraso, o silêncio, a falta da participação popular nas decisões.
O que a Escola atual tem feito, de tão perigoso, que esses paladinos da moral estão assim, tão preocupados? Ela tem sido espaço de resistência contra o descaso dos governantes, tem funcionado mesmo com a merenda desviada ou superfaturada, com cadeiras e mesas sucateadas, com professoras e professores mal remunerados e desvalorizados, com a ausência de segurança, de oportunidade de pesquisa, com o corte de verbas, a negligência familiar, etc. A Escola resiste e os alunos, aprendem nela, com ela - e com a realidade que os cerca- a serem também resistentes. Isso incomoda e muito. Não é a preferência política, sexual, religiosa, esportiva do professor que vai transmutar o pensamento do jovem estudante, mas sim o descaso, a roubalheira, a corrupção, o abandono do seu ambiente de estudo, do seu bairro, é o aniquilamento da sua voz.
Em participação na audiência pública[1] sobre assédio ideológico, na Comissão de Educação da Câmara dos Deputados, Miguel Nagib, líder do movimento Escola Sem Partido afirmou que “Nenhum professor possui liberdade de expressão no exercício da atividade docente, se assim fosse o professor ensinaria o assunto que quisesse, falaria de novela.” Vê-se, claramente, que o intuito desse movimento não é cuidar da formação educacional dos jovens, mas sim cercear a liberdade docente, reprimir as práticas dialógicas que primem pelo respeito às diferenças, que valorizem o pluralismo, usando para isso do poder que detêm, atualmente, na política nacional e de falsas afirmações sobre o exercício da docência e desconhecimento total da BNCC, PCNS e da LDB, que eles visam alterar.
Se houvesse, de fato, uma preocupação com a educação dos jovens brasileiros, com sua formação moral e acadêmica, esses probos senhores, defensores dos “valores”, estariam fazendo cumprir, em sua totalidade, o Artigo 205 e seguintes da Constituição Federal, entendendo a Educação como “...direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho.” (grifo meu). Se, porventura, lhes interessasse dar maior eficácia à LDB, ao invés de propor essa alteração aviltante, estariam lutando pelo cumprimento do Art.  3º e respectivos incisos da referida lei:
Art. 3º O ensino será ministrado com base nos seguintes princípios:
I - igualdade de condições para o acesso e permanência na escola;
II - liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar a cultura, o pensamento, a arte e o saber;
III - pluralismo de ideias e de concepções pedagógicas;
IV - respeito à liberdade e apreço à tolerância;
V - coexistência de instituições públicas e privadas de ensino;
VI - gratuidade do ensino público em estabelecimentos oficiais;
VII - valorização do profissional da educação escolar;
VIII - gestão democrática do ensino público, na forma desta Lei e da legislação dos sistemas de ensino;
IX - garantia de padrão de qualidade;
X - valorização da experiência extraescolar;
XI - vinculação entre a educação escolar, o trabalho e as
práticas sociais.
XII - consideração com a diversidade étnico-racial. (Incluído pela Lei nº 12.796, de 2013)

A Educação, por si só, em qualquer sentido, é um ato político, pois oferece ao educando novas possibilidades de ser e agir, a partir do conhecimento que ele constrói. Sim, constrói, porque conhecimento não é uma transmissão virulenta ou por osmose, o professor não empurra o conhecimento na mente do aluno, ele é construído pelas descobertas e percepções feitas por este, a partir de sua realidade e dos conteúdos apresentados. Jean Piaget (1896-1980), em sua Teoria Construtivista já dizia que o conhecimento é construção, descoberta, experimentação e não imposição e repetição de regras e conceitos. Posteriormente, Emilia Ferreiro ratificou essa ideia, especialmente no campo da leitura e escrita, revolucionando a alfabetização ( e eles não eram petistas, meus nobres). No Brasil, Paulo Freire, xingado por pessoas que nunca leram uma linha de suas obras, nem conhecem um traço de sua atuação, defendia a chamada Pedagogia da Libertação, que, resumidamente, clamava por uma educação emancipatória, inclusiva, que desse vez e voz aos historicamente excluídos. Em sua obra Pedagogia da Indignação, Freire deixa claro que a escola pode ser lugar transformador, como desejamos ou anulatório, como assim pretendem os defensores da Escola sem Partido.

 (...) jamais [pode] ser neutra, tanto pode estar a serviço da decisão, da transformação do mundo, da inserção crítica nele, quanto a serviço da imobilização, da permanência possível das estruturas injustas, da acomodação dos seres humanos à realidade tida como intocável.(FREIRE, 2000)
O que tem incomodado aos partidários desse movimento, não é a pseudo doutrinação de que tanto falam, mas a certeza de que a Educação liberta, faz falar, permite pensar, agir livremente, impede os votos de cabresto, combate a alienação, impede a dominação e isso, consequentemente, atrapalha a manutenção perpétua de crápulas no poder. A Escola sem partido pretende formar mão de obra barata, massa de manobra que não contesta, não reivindica, não sai às ruas lutando por seus direitos. O que eles querem é que você pense o que e como eles desejam e não que você seja livre para pensar, ser e construir.
Libertemo-nos, se assim desejarmos!

Erika Ribeiro
Professora, Poeta, Aprendiz de Fotógrafa, Gente que sente ( e muito)!






[1] https://www.youtube.com/watch?v=7t8ucShY8bw

domingo, 10 de julho de 2016

De teimosa que sou, resolvi viver!!



Ensaio Frida Khalo - Heitor Rodrigues Fotografia- https://www.facebook.com/heitorrodriguesfotografias/?fref=ts

De repente, no girar das engrenagens que arrastam a vida, se percebe que os acontecimentos, quase sempre, independem dos nossos desejos. A vida tem seu caminho e calendário próprio, que não se encaixa nos fluxogramas que traçamos como metas incontestáveis. A vida segue, quer você queira parar para descansar ou correr para chegar mais cedo; a vida vai adiante,  no tempo dela.


Feita a constatação - a tempo - há sempre escolhas: seguir, tão leve e livre como a vida é, sendo como quer e pode ser, ou amuar-se num ponto, insistindo em ser burocrático, lamentando os machucados e os voos não alçados.


Por vezes, a vida, imperiosa que é, te sacode do voo que você já rumou; mutila alguma asa, emudece um verso e finca a afiada dor. Não que ela queira te tirar o sonho, a liberdade ou o ar. O que a vida quer é que você seja capaz de reinventar-se, de criar novas alternativas  e rotas de voo. A vida nos coloca à prova, para que possamos plantar novas mudas, regar as flores do olhar e, assim, fortalecermos a alma, mas sem perdermos a poesia de cada dia. A vida quer que a gente viva, de fato.

Senti - e ainda sinto - o corte afiado de sua lâmina rasgando-me o riso, fazendo tempestade no olhar, amordaçando o verso leve que morava aqui. Senti - e muito. Senti o escorrer dela pelas pernas, o fugir da alma, a rebeldia e amargor do verso, o ocultar sombrio do riso. Senti muito. Senti tanto até perceber o que a vida queria de mim.

A vida quer que eu ensaie novos voos, mesmo com a asa quebrada; que plante outros versos, noutros ninhos; que eu desenhe o sorriso noutros rostos, mesmo que ele não esteja em mim. A vida quer que eu teime. De teimosa que sou, resolvi viver, sendo como quero e posso ser.


Erika Pók Ribeiro
Poeta, Vagalume, Professora, Aprendiz de fotógrafa, Ensaista de pássaro, Gente que sente (e muito).

Tempestade


Ouço o sorrateiro caminhar do tempo
Que passa leve, alisando as janelas 
de minha alma.
Arrodeia,
Num ritual perpétuo,
e vai deixando, sobre minha pele,
Recados escritos à mãos e lábios
que me fizeram.

É o tempo que chega, assoviando
as cantigas que ninaram quem sou.
Recontando os dias, de riso ou dor,
que na lida constante,
no verso que nasce
ou no poema que encerra,
Reconstroem o que sou.

É esse tempo que vai, nesse tempo que
é dele,
Arreliento menino
que chega e se esconde,
faz festa ou emburra-se,
Sempre abrindo as veredas
pro voo que é meu!

É o tempo que passa
e vai,
pendurado nas datas
que passeiam sem fim.


Pók Ribeiro
Uauá-Bahia

domingo, 12 de junho de 2016

Divagações de um cigarro anti-fumo

Foto: Heitor Rodrigues Fotografia
Enquanto escrevo mais um cigarro
e assopro suas fumaças alérgicas
pra bem longe,
o verso se apaga!

Ao lado, um analgésico repousa, já morno,
no copo marcado em carmim,
como se tuberculoso fosse.
  - Não beba aqui!
         JAZ!



Nesse ínterim, tanto eterno,
aquela nuvem já não sombreia
e
nem sei quando se foi.
É que, enquanto penso,
a vida desmancha mais
e última cinza cai no caco
que sobrou.



                                                         Pók Ribeiro

sexta-feira, 27 de maio de 2016

Não me calo!

http://www.bloginforma.com.br/criadora-eu-nao-mereco-ser-estuprada-recebe-ameacas-estupro/


Súbito o silêncio!!
Aquele que, lentamente, dilacera a alma e vai envenenando cada artéria, destroçando as vísceras. Depois, um turbilhão em ascendência: o grito engasgado, a pele em repulsa, o nojo, a ânsia... A infeliz e eviterna certeza de que ser mulher dói, nessa nossa sociedade tão obtusamente patriarcal.

33 homens e seu poder fálico. 33 homens e sua dominação sobre o corpo e a vida da mulher/menina. 33 homens e a reprodução do que pensam sobre nós. 33 homens e o escancaramento da perversidade machista, opressora e mortal.  Porém, não foram apenas os 33, a eles se somaram, ferozmente, outros tantos de igual pensamento, cuspindo ódio, crueldade e falta de conhecimento pelas redes sociais. 

E os destroços de minha alma, o que ainda restava de estômago e ar nas veias se esvai, vou morrendo presa à angustia e a revolta. Eu não sinto a dor, o medo, o nojo da menina estuprada - apenas imagino - mas sinto um desespero que me toma por completa. Tenho raiva e convalesço.

E vejo, descrente, comentários que atacam as feministas, que zombam de sua luta e manifesto, que questionam equivocadamente porque elas não “protegeram” essa menina, porque “não estavam lá”. Sequer sabem o que é o feminismo; criam uma visão estereotipada e não se permitem aprender, pesquisar. Eles se tornam autossuficientes por terem um falo. Fico zonza... Noutro canto alguém culpabiliza a vítima, suas roupas, seu modo de viver, sua “prematura” vida sexual e outros disparates. Há ainda quem defenda a castração química para o estuprador, como acudiu um dia um abjeto Senhor que, outrora, também disse que não estupraria a colega parlamentar, porque ela não merecia e que, recentemente, homenageou um torturador e estuprador. Outros tantos absurdos se insurgem... Desisto de pensar. Está extremamente difícil viver por aqui. Parem! Não importa o ponto, eu descerei!

Por favor, acordem!!! Não basta punir os estupradores, no caso destes serem presos. Não! Não adiantará castrá-los. Exterminá-los. Eles já terão estuprado, assediado, torturado, ameaçado, antes disso. O mal às mulheres já estará feito. É necessário sim, falar sobre machismo, mostrar que ele mata!! É fundamental fortalecer o feminismo, ser “Maria Passeata” sim, porque o debate, a conscientização, o grito, a denúncia podem evitar que outros tantos deuses fálicos destruam vidas. Se o feminismo te incomoda, se as imagens e textões, sobre o assunto, também lhe incomodam, você precisa reavaliar-se urgentemente e, principalmente, ler sobre o tema; não as leituras de posts do facebook, ou as rasas descrições do Wikipédia, digo a leitura que engrandece, acrescenta, questiona, provoca.

O que dizer às meninas com as quais convivo todos os dias, que são assediadas no ônibus, na fila do lanche, nos corredores/salas da escola, na rua, que já podem ter sido vítimas de assédio/violência sexual em casa? Fico engasgada mais uma vez... Meninas, lutemos!! Denunciem! Gritem! A culpa não é de vocês, nunca! O corpo é seu!

E aos meninos? Meus queridos, se reavaliem, respeitem, evitem reproduzir as práticas ancestrais que tratam a mulher como objeto, não exponham suas intimidades, não compartilhem imagens/vídeos/boatos, não avaliem a mulher pelo corpo, roupa, batom, jeito solto ou quieto de ser. Sejam parceiros na luta pela liberdade e vida da mulher.

Por fim, cá da minha ânsia e tristeza, percebo que além de respeito ao corpo, ao modo de vida, à liberdade da mulher, necessitamos de leitura e interpretação textual para compreender elementos essenciais como: liberdade, igualdade, feminismo, “cultura do estupro”, machismo, patriarcado, opressão, etc.. O conhecimento  também liberta e salva!!

Uma fala de Rosa Luxemburgo pode abrir o caminho para o aprofundamento, no tema:
“Por um mundo onde sejamos socialmente iguais, humanamente diferentes e totalmente livres.”
 Rosa Luxemburgo (1871-1919)

De cá, peço ao Universo que apague as marcas da alma daquela menina (e de tantas mulheres); que abafe os sons grotescos que possam povoar seus ouvidos; que lhe devolva a vontade de viver e ser livre.
Eu choro...


Erika Pók Ribeiro




domingo, 3 de abril de 2016

Da inefável labuta de ser e aceitar-se.

     


       Engana-se aquele que se contenta em ser, num burocrático e insípido exercício da existência. Antes, faz-se necessário ter-se por inteiro - das entranhas aos  pelos - num antropofágico ritual de devorar-se constantemente. 
       É vital engolir-se, paulatinamente, um tanto a cada dia - ou em tragos fartos - se assim se fizer inevitável. Comer-se, num rito liberto de quem sabe o quê e para quê é. Provar-se a fundo, estando disposto ao amargo ou à leveza do que em nosso âmago habita. Sentir-se em consciência plena, encarando as reentrâncias disformes, os fios energizados em perigo, os contornos fragilizados, a fim de evitar que o azedume se instaure, se espalhe e nos transforme naquilo que não pretendemos. A labuta de ser requer coragem para degustar-se e, principalmente, acertar os temperos interiores para não servimo-nos ao outro com gosto travoso ou demasiadamente adocicado.
       Não há que se camalear os espinhos que lhes rasgam a pele, mas previnem ataques. Também não carecemos forjar uma flor que não se pretende ser/ter. Do contrário, é a nossa essência que nos torna especiais nesse Universo que mistura caos e luz. É ela que deve ser servida em brandura, seja aos de paladar apurado ou àqueles que não conhecem de sabores.
      Assim, devemos ser completos na essência metafísica que nos compõe; levando, tanto se possa, o verso leve que falta, o silêncio cura ou palavra afago. Devemos, sempre, adstringir nossa alma das misturas desastrosas, do que destempera e causa azia. Só assim, não seremos propagadores dos dissabores, das amarguras e bolores.
      Ser é um labutar constante que prescinde de coragem e de poesia, daquela pulsante, latente, que explode nas cores, nos braços, nos sons, no branco dos dentes que se desnudam sem esperar trocado. Ser é transcender aos limites, romper as caixinhas que prendem pessoas e engessam os versos. Ser é, antes de tudo, ter-se em harmonia, aceitando os contornos, os excessos, as discordâncias, mas, sobretudo, vigiando para não amargar-se.
       Ser é ir das vísceras às pálpebras num verso diário e teimoso.


Erika Pók Ribeiro


segunda-feira, 14 de março de 2016

Poesia Viva


Nasceu no rasgo sangrento
Da manhã,
Teimando sempre em 
Refazer a direção.
Brotou, serena, no grito rouco
Da dor penitente,
Que não se acanha e faz demora.
Resistiu!



A poesia não pediu licença!



A poesia diz

Numa objetividade de causar inveja

A qualquer prosa abalizada.
Não silenciou!




A poesia não eufemizou a ferida!

Despiu-lhe a casca,

Sem meia luz,
Ou verdades metades.
Sentiu na carne de seus versos vivos!




E ela rebrota, em cada fenda dos muros,

No mais ínfimo espaço entre retas,

Tangendo as moscas,
Refutando as névoas 
Que pairam inóspitas
Sobre os versos em transe!
A poesia grita!!




E eu sou a poesia!

Pók Ribeiro

terça-feira, 8 de março de 2016

Ser mulher é viver/padecer no imperativo.


   

            Ah! É uma menininha! Vai namorar meu filho! Não! Vai ser freira, filha minha não namora antes dos 21 anos. Aahh!! São tantos vestidinhos, lacinhos rosa... As bonequinhas, tão branquinhas de olhos azuis. Depois, as cozinhas em miniatura; aprendiz de "mulher do lar".
        Sai daí! Larga essa bola! Desce desse muro! Deixa esse caminhão pra lá; isso é coisa de "menino homem'!
        Isso lá é idade para namorar? Limpa esse rosto! Cresce essa roupa! Parece uma puta! Para de andar enganchada nos meninos! Prende esse peitos! Fecha essas pernas! Se dê ao respeito!
        Grávida?! Nessa idade?! É uma oferecida, desajuizada, sem valor! Culpa da mãe que não soube criar. Pensou em abortar?! Meu Deus! Assassina! Bandida! Merece morrer!
        Ainda não casou? 'Tá ficando coroa, depois, na velhice, vai ficar sozinha, sem ninguém para lhe amparar. Oxe! Já casou e ainda não teve filhos? Deixe de ser egoísta, fica só pensando em diplomas, depois vai se arrepender. Para ser mulher de verdade é preciso ser mãe. Até a cólica passa depois que pare. Cura endometriose também; isso é coisa de quem não pariu. 
        Vai só ficar, sem assumir compromisso? 'Tá pensando que ainda é adolescente? Que vulgaridade! Parece uma puta! Como pode, perdeu a chance do Mestrado, a promoção no emprego, pra ser mãe?! Que horror! Vai Amélia!
         Não acredito?! Esse olho roxo é de apanhar do companheiro. Fica com ele porque gosta de apanhar. Essas manchas, a tristeza, o abandono do emprego... Mas em briga de marido e mulher não meto a colher.
         Arruma esse cabelo! Usa um batonzinho! Perde uns kgs, sua gorda feia! Cadê o salto? Que desleixo, parece um macho. E essas tattoos? Ficou louca? Isso é coisa de vagabunda. 
          Vai parir? Parto normal que é bom! A natureza quis assim. Para de gritar, na hora de fazer não chorou! Com corte sim, o médico sou eu! Vai fazer cesariana?! Que fresca, não quer sentir dor. Não tá amamentando?! Malvada, sem coração! Guarda esses peitos, "senvergonha", aqui não é lugar pra amamentar!
           Você já é uma velha, mostrando as pernas! Balada é pra jovem! fazer crochê... Cuidar dos netos! Tu vai ficar aí, cuidando da casa e dos filhos dos outros? Quem pariu o Mateus que balance! Vá aproveitar a vida!!




                                   Êpa, que vida mesmo?! E de quem?!

        Não precisamos de um dia, mas de liberdade para sermos quem e como quisermos.


Erika Pók Ribeiro

domingo, 31 de janeiro de 2016

Seu corpo, suas regras ; Meu corpo, minhas asas!




Seu corpo, suas regras;
                                Meu corpo, minhas asas!


Sejam os padrões de magreza e os excludentes números de manequim, os tipos aceitáveis de cabelo e suas tonalidades, a cor da pele, a permissão de celulite ou sua condenação perpétua, até a imposição das tendências de moda, cor, acessórios, etc. o fato é que vivemos cercados e espremidos por regras que nos impedem de ser quem somos.

E quem somos, afinal? O que queremos?

Não são regras, apenas, as que obrigam à magreza, ao alisamento, ao clareamento, ao zero glúten... entre outras. O contra-ataque massivo a essas imposições também pode criar uma outra leva de regras e, independente da natureza, elas oprimem.

Antes de ser como quer a sociedade ou, de ser, extremamente, contrária ao que ela impõe, é fundamental ser como se quer. Ser é um exercício íntimo e requer, apenas, liberdade individual e amor próprio em doses imensuráveis. Não há regras, modelos, guias instrucionais para ser. Somos seres únicos e nossa alma, guardiã de toda essência, é quem guia (ou deveria guiar) nossas escolhas.

Constantemente ouço que estou “cheinha”, que meu cabelo “poderia estar menos bagunçado”, que eu poderia “usar um batonzinho” e outras verdades absolutas de quem segue as regras que não me definem. Sim, estou cheia de amor próprio, de autoconhecimento, de amor pela vida, de desejos livres, de lembranças lindas, de leituras maravilhosas; Cheia de cores, imagens e sons que me fazem; transbordando poesia...a poesia se derrama morna e aromatizada em mim. Eu estou cheia da liberdade que me permite saber quem sou e lutar, a cada dia, para ser melhor.  Cheia de marcas que a vida me deu e dá. O meu cabelo traz os sinais do vento, os dedos dessa liberdade que desalinha e me faz sorrir. Trago nos lábios a cor natural de todos os beijos que quis [e quero] dar, dos versos compartilhados, das canções ensaiadas, das orações ao Universo...Meus lábios são da cor de minha alma.

Quando se trata de carreira, relacionamento, filh@s, as regras e os inspetores se asseveram, embora mascarados. Escolher esta ou aquela profissão, fazer um curso renomado e optar, livremente, não segui-lo pode ser o Apocalipse para aqueles que vivem reféns dos padrões e do status (falso) que eles trazem. Relacionar-se por amor, sem observar raça, idade, gênero é colocá-lo no rol dos loucos, e eu amo a loucura e sua liberdade gargalhante!  Não ter filh@s e mesmo assim estar inteira, completa e feliz é, para as guardiãs da feminilidade sacra, um pecado sem perdão; eu, ainda bem, sei de mim, das minhas vontades e não tenho vocação alguma para santidades. Humana que sou, construo-me sobre as marcas dos erros que me aprimoram.

É que para minha alma e meu corpo não há regras, nem modos; há asas!!

Erika Pók Ribeiro