sexta-feira, 29 de maio de 2020

Carta ao silêncio

Arquivo pessoal



Sr. Silêncio,
Escrevo para te certificar que não estou bem. Não estou bem, mesmo, e não quero que me digas nada. Faz-te! Nada há de mudar no vão onde moras.

Não estou bem e escrevo. Escrevo tanto para dizer, como para viver, ou sei lá se vivo. Escrevo para atestar que me vive algo além de náusea, a insônia e dor instaladas há meses nos espaços ocos desse corpo e espírito.

Enquanto escrevo, cada palavra absolvida,  desse meu calabouço de pensamentos atropelados, é como uma alma resgatada lá do umbral. É uma célula que revive e suspira. Escrevo como quem salva sentenciados perpétuos. Só ainda não sei salvar o que sobra de mim, de nós, pobres julgados das galés do assombro, da pérpetua angústia desse (des)governo. 

Queria escrever aos que falam festivos e esperançosos. Aos que celebram a palavra e seu doce sopro de ressurreição. Aos que dedicam-se a beber buscando o antídoto ou o impedimento constitucional, no fundo do copo.  Queria escrever para a cura ou à ela, se ainda soubesse de amanhãs reluzidos.

Escrevo para respirar, enquanto não há vacina pro vírus nem pra lágrima. 

Escrevo, enquanto a calçada é calabouço e o jornal me estrangula. Escrevo como quem voa sem planos de retorno.

Escrevo.

Não me responda.  Faz-te!


Pók Ribeiro


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