Arquivo pessoal |
Sr. Silêncio,
Escrevo para te certificar que não estou bem. Não estou bem, mesmo, e não quero
que me digas nada. Faz-te! Nada há de mudar no vão onde moras.
Não estou bem e escrevo. Escrevo tanto para dizer, como para viver, ou sei lá
se vivo. Escrevo para atestar que me vive algo além de náusea, a insônia e dor instaladas
há meses nos espaços ocos desse corpo e espírito.
Enquanto escrevo, cada palavra absolvida, desse meu calabouço de
pensamentos atropelados, é como uma alma resgatada lá do umbral. É uma célula
que revive e suspira. Escrevo como quem salva sentenciados perpétuos. Só ainda
não sei salvar o que sobra de mim, de nós, pobres julgados das galés do assombro, da pérpetua angústia desse (des)governo.
Queria escrever aos que falam festivos e esperançosos. Aos que celebram a palavra e seu doce sopro de
ressurreição. Aos que dedicam-se a beber buscando o antídoto ou o impedimento constitucional, no fundo do copo. Queria escrever para a cura ou à ela, se ainda soubesse de
amanhãs reluzidos.
Escrevo para respirar, enquanto não há vacina pro vírus nem pra lágrima.
Escrevo, enquanto a calçada é calabouço e o jornal me estrangula. Escrevo como quem voa sem planos de retorno.
Escrevo.
Não me responda. Faz-te!
Pók Ribeiro
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