segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Reflexões Enenianas

Arte de Lorrayne, ex-aluna 

“Tirei X na redação do ENEM, obrigada, professora!”


A docência, como qualquer outra profissão, possui seus ônus e louros; que graça teria se assim não o fosse?! Porém, propositadamente, com fins visivelmente opressores, começaram a tratá-la como um sacerdócio sobre o qual o seu mártir – o professor – deve se doar completamente, de modo abnegado e ilimitado. O professor deve abrir mão de sua existência “em nome da missão que lhe foi confiada”. Que bonito seria se isso fosse por respeito e não por exploração e imposição da inércia.

Costumeiramente, em tempos de resultado do ENEM e outros exames, recebo, com os olhos afogados e os pelos agitados de emoção, notícias alvissareiras do desempenho dxs alunxs, agradecimentos e até relatos de reconhecimento bem marcantes. “ Tirei 700 na redação”; “ Tirei 960 na redação”; “ Só lembrei de você naquela questão”; “Parece que ouvia sua voz”. Isso é que nos alimenta, completa o pote do gás que tende a esvaziar, mas não dá para ser hipócrita e esquecer todos os percalços por trás de um bom resultado. Há mérito do professor, sim, inegavelmente, mas há também do aluno e de sua família que travou batalhas que só ele/s conhece/m. É importante refletirmos sobre os caminhos desses resultados.

Infelizmente, os que (in)gerem a Educação visam apenas propagandear índices, resultados, sem importar-se com a verdade deles. Eles preferem investir, absurdamente, em sistemas que robotizam o professor, obrigando-o a preencher plataformas moldadas com uma realidade que nem sempre corresponde àquela vivida em sala de aula. É mais importante para os “donos do sistema” que o SIEPE esteja preenchido no prazo estipulado, com frequências e registros de aulas diários, com notas e guias bimestrais, mas eles não se interessam pela qualidade e eficácia da aula, pela construção diária, pelos imprevistos que mudam os rumos do planejamento, pelas horas de preparação de material – e pela ausência deles -, pelas horas de correção, pelas dificuldades de execução, etc. etc.

A docência é a única profissão em que a formação continuada é tida como uma extravagância e é deixada de lado (não sendo proporcionada ou sendo sem qualidade e aproveitamento algum). Para os “donos do sistema”, não importa que o professor não tenha tempo para ler, estudar, pesquisar, isso é problema dele. Mais importante é dar conta do SIEPE em escolas sem ou com internet precária, com espaços desumanos e uma carga-horária gigante. Estudar para quê? Isso remonta à ideia inicial de sacerdócio, de doação e martirização, perpetrada, inclusive, pelos próprios professores que acabam aceitando a condição de coitadinhos, de subprofissão. Eu não! Orgulho-me de ser professora, livre e engajada!

Mais uma vez o bom resultado dos meus alunos me faz refletir, afinal, esse resultado é consequência do SIEPE preenchido em tempo hábil ou das horas que dediquei – e dedico – ao estudo, à leitura constante, à busca por inovações que chamem o mínimo, a atenção do meu aluno que vive num mundo repleto de novidades, fora do ambiente escolar?! O bom resultado dos meus alunos é consequência das planilhas que preenchi, mecanicamente, todos os bimestres com dados que nunca foram problematizados ou aproveitados ou dos cursos e especializações que tive que pagar para me aprimorar?! E o esforço desses alunos que passam o dia inteiro sem nenhum conforto, com parco material e alimentação, muitas vezes precária?

É importante ressaltar que o professor, assim como qualquer outro profissional, tem direito ao descanso e a sua casa não é - e nunca deve ser - extensão do seu trabalho. Não basta oferecer uma manhã, durante a semana, para que ele elabore atividades, estude, corrija 400 redações, preencha o magnânimo SIEPE, participe de uma possível formação. É necessário mais que isso! É fundamental que haja, de fato, respeito pela docência. É mais importante, ainda, que nos respeitemos enquanto profissionais.

Por fim, ainda há um lucro imensurável nisso tudo: o reconhecimento comungado à possibilidade de autoavaliar-me e aprimorar minha prática em busca de melhores e REAIS resultados. Afinal, as inúmeras mensagens de agradecimento e reconhecimento massageiam o ego, mas também deixam clara a importância do estudo constante, do refazer-se humanamente e profissionalmente. A gratidão é toda minha pela oportunidade de aprender, experimentar e construir, com meus alunos, essa educação que acredito!

Erika Jane Ribeiro – Pók Ribeiro
Poeta, professora, aprendiz de fotógrafa, gente que sente – e muito



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