sábado, 16 de julho de 2011

Eurides Conceição




Houve um tempo em que as nuvens daquele céu tinham formatos variados. Eram seres que eu nunca tinha visto, mas de algum modo sabia o que eram: leões, tigres, duendes, fadinhas, sacis... os carneirinhos é que nunca consegui ver lá no meu céu. Naquele tempo, carneirinhos e cabras estrepoliavam lá no terreiro. Eu também!


Ali, bicho e gente se misturavam ... conversavam harmoniosamente. Tantos segredos contei aos cabritos e às sabiás magrelas que roubavam carne estendida no pau da cozinha. Eu era comparsa nos seus crimes inocentes. Talvez, eu as acobertasse na tentativa de me redimir do mal que outrora lhes causara, quando colocava pedrinhas miúdas no bico dos sabiás filhotes.


Nesse tempo, que o calendário tirano levou, as vozes do galo e do jumento eram os relógios mais eficientes. Assim como pisar na cabeça da própria sombra indicava a hora do almoço: bode, feijão de corda, abóbora, maxixe...nham, nham, nham! O cheiro do café fresquinho, de Sinhá Uride, se espalhava toda tarde, convidando a todos pra sentar no banco da cozinha e degustá-lo numa prosa bem quente. Na Quaresma, os santos encobertos de roxo; no Natal os cânticos de louvor , e ela lá!


O rádio , sintonizado na AM, transmitia em suas ondas e Khz as informações do mundo lá fora e trazia as canções "mais mais da semana". De Gonzaga a A-Ha, de Kid Abelha a Scorpions...tantos mais. Ao meio-dia ela sempre ouvia o "Repórter Somassa" e para cochilar, as canções da tarde. Várias vezes fugi, enquanto minha casa dormia, para vê-la, através da janela, cochilando junto ao rádio.


O sol pendia no seu trajeto final e lá ia eu, rumo ao paraíso. Casarão de alpendre alto, cheiro de café torrado, bolinho branco de tapioca, pratos lavados na gamela e a figura mais especial de todas: Sinhá Uride, cuidadora das almas, dos corpos enfermos, dos filhos sem mãe, das cabras paridas, dos cabritos enjeitados, das ilusões das crianças. Alimentadora dos meus sonhos e da minha gula pelos divinais bolinhos brancos fritos na hora. Regou em mim um amor tão puro, guiou meus olhos para contemplar a vida de um modo tão simples e belo. Sem rouge, batom, scarpin ...a vida pura, rica em essência. Ela me ensinou que a liberdade é o maior trunfo da humanidade, que casamento e filhos a gente escolhe tê-los, ou não, e mesmo assim é feliz. E, principalmente que a caridade é a forma mais sublime de amar.


Hoje, este tempo arrancou a poesia daquele outro, destruiu as evidências materiais, mas em minh'alma não ousará tocar. Nada apagará um amor que nasceu puro, nem tirará da alma as lições que um tempo ensinou. Não há 1mg de veneno que mate honra, caráter e amor.



Erika Ribeiro.

3 comentários:

  1. aylton amorim reis16 de julho de 2011 19:59

    muito bom,me fez lembrar dos finais de semana na casa de vovó lá na roça,era bom,bom pra dedeu,jogar pedra nos porcos,cabras,"rolinhas" e etc,que saudade.

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  2. Lindo!!!maior prova de amor.

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  3. Lembranças da infância...

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